Flavio de Araujo Barbosa tem 54 anos, é formado em Ciência, Administração e Gestão Escolar e consultor do programa Formar desde 2018. Mas nem sempre foi assim. Hoje, ele conta como a educação mudou sua vida. 

Conheça abaixo sua história: 

Me lembro perfeitamente do ano de 1981. Foi quando consegui meu primeiro emprego. Eu tinha 16 anos e morava em José Walter, um bairro periférico de Fortaleza, no Ceará. Minha casa ficava a uma hora de Aldeota, bairro nobre que abrigava a escola onde fui porteiro. Levantava às 5h e às 7h já estava a postos para abrir e fechar o portão para os carros, acenando com a cabeça um bom dia que raramente encontrava respostas.

Ninguém me perguntava como eu estava, quem eu era. Eu me sentia invisível, era como se não existisse.

Na minha solidão, aguardava ansiosamente o ponteiro do relógio indicar meio-dia, quando estava liberado para voltar pra casa. Saía do colégio particular rumo à escola pública, onde passava as tardes estudando. Desde cedo percebi que nos livros poderia encontrar uma saída para um futuro mais promissor. 

Nessa época, era mainha quem cuidava da família. Morávamos com minha irmãzinha em uma casa de dois quartos, um banheiro e uma pequena sala. Minha mãe estudou até a quarta série e era cozinheira de um restaurante quando comecei a entregar todo meu salário de porteiro aos seus cuidados. Trabalhar, nesta época, foi uma necessidade. Meu pai tinha saído de casa e o peso das contas recaiu sobre mainha. Meu padrinho, sabendo da situação familiar, me ofereceu um cargo na escola - acontece que ele era o dono, e eu não entendia porque me ofertava uma vaga tão vulnerável. Eu tinha uma lição a aprender.

Aliás, aprender a aprender foi minha verdadeira lição de casa. Decidi levar esse aprendizado para a vida.

Flavio é consultor do programa Formar e apoia secretarias de Educação na aprendizagem dos alunos

A educação me permitiu ser dono da minha história

Trabalhar como porteiro me ensinou muito. Sentir o peso de um trabalho invisível apurou meu olhar para os cargos e as tarefas essenciais que têm muito a nos ensinar. Decidi que seria o melhor porteiro daquela escola, mesmo não concordando com o tratamento que recebia de pais e professores. Minha dedicação surtiu efeito. Um ano depois, uma oportunidade despontou e eu fiz as malas - literalmente. Fui atuar como recepcionista em um internato - onde morava, trabalhava e sentia que existia.

Sempre estive muito perto da educação, como conta minha história. Passei por diversas escolas e cargos diferentes - de porteiro a datilógrafo. Até que, em 1990, minha mãe teve um infarto e o médico me pediu para voltar para o interior do estado, em São Gonçalo do Amarante. Como trabalhava na capital, voltar para casa todos os dias significava enfrentar um percurso de 55 quilômetros. Eu não ganhava bem, então ainda precisava de dinheiro para pagar esse transporte de ida e volta.

Mais uma vez a educação me abriu portas: passei a dar aulas à noite, de matemática e estudos sociais, no Centro Educacional Professor Domingo Brasileiro. Essa jornada dupla e extensa durou 3 anos. Eu sabia que estava trilhando um bom caminho na educação, mas não podia imaginar o que me aguardava.

Porteiro, professor, diretor, secretário…

A escola do interior estava prestes a passar por uma eleição para eleger um novo diretor. Senti que deveria me candidatar. Meus alunos foram grandes entusiastas da candidatura. E não é que ganhei? Me faltam palavras para descrever o momento sublime que vivi ao descobrir que seria o novo diretor da escola. O que posso dizer seguramente é que meu coração se encheu de alegria, eu poderia finalmente ficar perto da minha família e colaborar ainda mais com os 400 alunos da escola. Naquele instante, prometi a mim que faria uma gestão ímpar. E assim foi por cinco anos de trabalho. Em 1997 saí da secretaria da escola, a convite do prefeito, iria me tornar secretário do município.

Colação de grau do Flavio na UECE (Universidade Estadual do Ceará)

Algum tempo depois passei a atuar como presidente da Undime Ceará, oportunidade que me apresentou a pessoas excepcionais, profissionais impecáveis, como o professor Raí, atualmente um dos Talentos da Educação pela Fundação Lemann. Meu trabalho na Undime Ceará me proporcionou ser eleito presidente da Undime Nordeste. Em 2017, convidei Raí para dar uma palestra em Martinópole, no Ceará.

Não acreditei quando fui indicado para o Formar

Uma semana depois da palestra do Raí, recebi um convite da Fundação Lemann: me tornar consultor do programa Formar para melhorar a aprendizagem dos alunos da rede pública de ensino. Meu corpo todo respondeu, com picos de êxtase e alguns calafrios de empolgação. Mas eu mesmo não consegui digitar uma linha sequer em resposta. Foram quinze dias de um silêncio incrédulo até que minha esposa foi imperativa: hoje você só sai da frente deste computador quando responder a Fundação Lemann. Acatei. Sentei e comecei a escrever a minha história com o time do Formar. Poucos meses depois e um processo seletivo mais tarde, me tornei um dos consultores do programa. 

Entrar no Formar só fortaleceu minha fé na educação. Capacitamos gente, e é nisso que eu acredito: fazer junto, lado a lado. Vi as competências pessoais ganhando perenidade, não dependendo do programa. O Formar encerra seus trabalhos, mas as melhorias e as pessoas ficam. Fazemos as redes refletirem sobre suas ações para que busquem aperfeiçoar suas políticas. A ideia é que tudo que está sendo feito melhore a aprendizagem dos alunos

Trabalhar na Fundação Lemann também me mostra que é possível evoluir e aprender enquanto se trabalha (e muito!)

O tempo que passo com esse time me faz crescer profissionalmente, estou cada dia mais preparado pela equipe indescritível que abraça esse trabalho.

Flávio em Seminário organizado pela Undime em Brasília

A minha história e de tantos outros Flavios me conta que não estamos fadados a morrer como nascemos - ou não deveríamos estar.

Nosso berço não pode determinar quem seremos: minha mãe, cozinheira, tinha até a quarta série. Meu pai, motorista de ônibus, não tinha nem isso. Eu, aos 16, era um porteiro invisível. Hoje tenho rosto, nome e desempenho um trabalho relevante, que transforma a educação do país.

Precisamos de mais gente com acesso, mais gente com educação, mais gente com oportunidade. Precisamos olhar para essas pessoas e reconhecer que em cada ser humano reside um potencial infinito para o sucesso. E a educação é o único caminho para acessá-lo. 


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