Filha de peixe peixinha é: Emmanuelle Richard, a Manu, começou a se interessar por tecnologia ainda criança a partir do intenso convívio com o pai, que cria ela e as duas irmãs no meio de computadores e programações. Aos 8 anos de idade, a garota foi estudar programação e, pouco tempo depois, criou o seu próprio app. 

Conheça a história dela!

Prazer, eu me chamo Emmanuelle Richard, tenho 17 anos e sou de Natal, Rio Grande do Norte. Tenho duas irmãs: Isabelle, 18, e Alice, 13. Meu pai é programador e cria, sozinho, nós três. Crescemos vendo ele programar, mexendo no computador e o acompanhando a eventos de tecnologia e empreendedorismo. Como essa rotina faz parte da nossa vida desde bem crianças, a sementinha da programação já nasceu com a gente. 

Fui alfabetizada em casa e, por isso, entrei adiantada na escola. Assim, eu e minha irmã mais velha estudamos juntas, na mesma sala. Quando estávamos no 4º ano do Ensino Fundamental, queríamos comprar doces e afins, mas não tínhamos dinheiro. Ficamos tristes, mas meu pai nos fez uma proposta: ele poderia fazer um empréstimo a juros zero pra gente. Com a quantia, compramos chocolate e começamos a vender na escola, durante o intervalo, para termos o nosso próprio dinheiro. O que mais saía era o pirulito de chocolate e a moedinha de um real.

Emmanuele com poucos meses de vida e seu pai, que inspirou a entrar na programação

Naquela época, meu pai fez uma coisa muito importante, que foi ensinar a gente a administrar o nosso dinheiro. Ele usou a técnica das três caixinhas — a do ontem, a do hoje e a do amanhã. Com o lucro, cada uma recebia uma porcentagem e o dinheiro que ficava para a gente, o que não era da “nossa empresa” para novos investimentos em produtos, era dividido em três. A do ontem servia para pagar dívidas, a do hoje era para comprar as balinhas que eu queria e me virar durante o mês todo, enquanto a do amanhã eu usava para fazer algum curso ou guardava para qualquer viagem ou emergências. Comprávamos chocolate e vendíamos na escola, durante o intervalo. Fazíamos bastante sucesso. 

No 6º ano, mudamos de escola e, lá, fomos proibidas de vender. Foi muito triste, principalmente porque eu não queria mais pedir dinheiro para painho. Eu tinha percebido o quanto era bom ter o meu próprio dinheiro. 

Somos de uma família de classe média, vivemos em um bairro mediano e meu pai sempre fez o possível para pagar a melhor escola que podia. A primeira era bem pequenininha e, no 6º ano, ele conseguiu investir em uma escola maior, que não chegava a ser a melhor da região, mas era uma escola boa. 

Nessa mesma época, meu pai matriculou eu e Isabelle em um curso de programação. O problema é que era um curso para adultos e nós éramos as únicas crianças [tínhamos entre 8 e 10 anos] e as únicas meninas da sala. Aprendemos bastante, mas não aproveitamos tanto porque eles não usavam uma didática infantil. Então, a gente achava aquilo tudo muito chato.

Tive uma decepção muito grande porque eu via o meu pai programando e parecia uma coisa legal. E, ao fazer o curso, descobri que não era nada legal. Pegamos uma espécie de trauma da programação e, para tentar reverter essa situação, meu pai começou a inventar uns exercícios para nos ensinar de outra maneira.

Já no 8º ano, fomos para uma escola um pouco melhor, o Instituto Brasil. Não era um colégio de pessoas ricas, mas era a melhor da nossa região. Foi um auge na minha vida, muito legal. Lá, a coordenação organizava viagens de aulas-campo. A primeira ia para uma cidade do interior do Rio Grande do Norte e eu queria muito muito ir [muito mesmo!]. Praticamente todo mundo da sala participaria do passeio. Custava cerca de R$ 300 e me animei, porém, meu pai disse que, infelizmente, não tinha como pagar para eu e minha irmã irmos juntas. Aquilo me decepcionou, fiquei triste. Mas prometi para mim que, no ano seguinte, eu iria viajar com a turma. 

Meu pai tem um escritório em casa, e ele fica programando de lá. Naquele tempo, entre 11 e 12 anos, voltei a me interessar por programação e comecei a acompanhá-lo na salinha. Passava horas ali observando meu pai trabalhar, numa espécie de estágio [eu tinha até uma folha de ponto] para juntar dinheiro para a próxima viagem. Era cansativo, no entanto, passei a ter uma noção diferente da programação, tive outras experiências. Fazendo isso, consegui, no ano seguinte, ir para a viagem com a escola. Isso fez com que toda a minha vida mudasse.

Em 2015, fomos [eu, meu pai e minhas irmãs] para a Campus Party Recife. Foi uma aventura e tanto, muito legal. Eu tinha 12 anos e a única coisa que davam de graça lá era café. Fiquei triste porque esperava ganhar outras coisas. Aí, estava andando pela feira quando avistei pessoas recebendo picolé. Sabe quando, nos desenhos, os personagens veem um pote de ouro no fim do arco-íris? Parecia eu ali. Saí correndo atrás do picolé e entrei em uma fila. Quando chegou a minha vez, o moço do estande disse que não era fácil ganhar o sorvete. Antes, era preciso participar de um joguinho e, caso ganhasse, levaria um picolé.

Emmanuele na Campus Party de Recife

Quando fui jogar, achei muito simples. O objetivo era levar um passarinho até um determinado local. Ao perceber que se tratava de um jogo em JavaScript, ou seja, de programação, não acreditei. Logo completei a tarefa e chupei um picolé. Eu entrava na fila de novo, vencia e ganhava mais picolé, até o momento em que não precisava mais jogar para ganhar o brinde, de tanto que consegui. A brincadeira perdeu a graça para mim, mas continuei por lá ajudando as pessoas. 

Depois, fui procurar o pessoal do Programaê! [eram eles que estavam promovendo o desafio do picolé] para dizer que achei a ideia genial. Assim, contei toda a minha história com a programação e fui convidada a participar da palestra que eles dariam naquele mesmo dia na Campus Party. Foi a minha primeira palestra e a minha estreia em um palco. De lá, eu avistava o evento inteiro e todo mundo olhava para mim. Aquilo me deu um poder muito grande.

Manu na palestra que foi convidada pelo Programaê!
Fonte: Arquivo pessoal.

De volta a Natal, resolvi que iria fazer um aplicativo. Meu pai gostou da ideia e disse que me ajudaria. Como estava perto da feira de ciências, tive a ideia de criar um aplicativo para ajudar os visitantes a encontrarem mais facilmente os alunos, os trabalhos, as salas. Foram quatro meses de trabalho para fazer o aplicativo acontecer. Meu pai falou: “Olha, Emmanuelle, eu não sei programar em dispositivo móvel. Então, você vai ter que estudar sozinha.” Foi aí que comecei a estudar [muito!] e a pesquisar vários tipos de tecnologia.

Conversei com a diretora da escola e ela me ajudou a divulgar o app, que eu chamei de Jornada IB. Ficou bem legal. Na primeira tela, tinha a listagem dos trabalhos que estavam sendo apresentados, com o nome do aluno e o tema. Também tinha uma área de pesquisa  e um mapa. Assim que o aplicativo ficou pronto, comecei a ver gente baixando.

É muito legal perceber que aquilo que você criou fez sentido e teve utilidade para outras pessoas também.

Na feira, logo de cara, já vi o pessoal da recepção usando o aplicativo para indicar as salas. Fiquei animada. Em uma das minhas caminhadas pelo evento, ouvi um casal conversando: “Esse aplicativo foi criado aqui na escola, por uma aluna.” Estava bastante feliz, foi uma oportunidade para aprender mais. 

Após um tempo, o pessoal do Programaê! (iniciativa da Fundação Lemann e Fundação Telefônica) entrou em contato comigo e fui convidada para ir a São Paulo palestrar para crianças da rede pública. Foi a primeira vez que andei de avião. Meu pai me acompanhou, mas foi muito legal porque eu estava indo por mim, por algo que eu tinha feito. A palestra foi ótima, adorei conhecer outras pessoas e, principalmente, mostrar para os alunos que meu pai é pai solteiro, cuida sozinho de três meninas, e eu, mesmo não tendo o melhor computador do mundo, mesmo não tendo muitas coisas, consegui mudar uma parte da minha história. Tive uma identificação com aqueles alunos.

Na sequência, comecei a fazer palestras pelo Nordeste.

Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é palestrar no interior, nos institutos federais e nas escolas públicas porque adoro dividir com as pessoas pelo menos um pouco das oportunidades que eu tive. Faço vários amigos durante essas viagens.

Meu pai tem um amigo que dá aula na rede pública de Monte Alegre, um município aqui do Rio Grande do Norte. Fica a uns 30 minutos de Natal e, mesmo estando perto da capital, é uma realidade diferente. Fui palestrar lá, numa escola bem carente. Às vezes, tomo um choque de realidade. A conversa com os estudantes foi perto do Enem porque o professor queria que os alunos pensassem em ocupar lugares mais altos, queria que eles sonhassem. Muitas crianças e adolescentes não sonham mais porque acham que as coisas estão distante deles. Conversei com a turma e, inclusive, tinha pedido para algumas pessoas da programação e que tiveram a vida mudada por esse conhecimento, para gravarem um vídeo para aquela garotada com mensagens de apoio. 

Um tempo depois, o professor ligou para o meu pai contando que alguns alunos passaram na universidade federal. Eu achei gratificante. Não tem dinheiro que pague você ver outra pessoa fazendo sucesso também.

Em dezembro de 2017, eu já tinha terminado o 3º ano do Ensino Médio, quando recebi o convite para estagiar numa empresa. Eu e minha irmã fomos contratadas pela eita!, para trabalhar com um software chamado Credere, que ajuda as concessionárias de moto a fazer financiamento. Foi uma experiência bem legal. Em janeiro de 2018, a gente [eu e Isabelle] se matriculou na UNP, a Universidade Potiguar. Tínhamos prestado o vestibular e conseguimos um desconto. Agora, já estamos no segundo ano do curso de ciência da computação.

Ainda em 2017, a gente recebeu um convite para participar do Women Techmakers Natal, um evento do Google. Eu e Isabelle fizemos tudo e decidimos que o evento seria fechado apenas para mulheres. Foram quatro palestrantes e 80 participantes. A ideia foi criar um ambiente confortável de mulheres para mulheres. Depois, em abril de 2018, a gente recebeu uma proposta para fazer um evento voltado ao público feminino na primeira Campus Party Natal. Então, eu e Isabelle criamos o W3E, ou Women Winning World with Equity [mulheres conquistando o mundo com equidade, em português], que existe até hoje.

Durante a Campus Party em Natal
Fonte: Arquivo pessoal.

Saí da eita! no fim de 2018 porque recebi o convite para trabalhar em uma empresa de São Paulo, à distância. Mas saí de lá há poucos meses porque estou montando um aplicativo [ainda é segredo!] com o meu pai e, para isso, preciso me dedicar.

Não sei nem expressar muito bem o que a educação significa para mim.

Educação, seja na escola pública, seja na particular, dá a oportunidade de você mudar a sua vida. No futuro, eu me enxergo ajudando outras pessoas. É uma das coisas que mais gosto de fazer, é o que me traz muita felicidade. Eu sou muito feliz programando, mas gosto de ver o brilho nos olhos das outras pessoas.

Não é fácil para uma menina estar na programação porque é uma área muito masculina. Não vou inventar um conto de fadas porque é bem difícil. Uma mulher na programação passa por várias coisas, alguns preconceitos, então, é preciso encarar de cabeça erguida. Vão aparecer dificuldades pelo caminho, mas se você quer realmente uma coisa, nada pode parar você. Mesmo na dificuldade, você tem de respirar fundo e continuar porque é assim que você vai conseguir chegar onde quer. 

Já sofri preconceito, por ser mulher e por ser jovem. Na minha turma da faculdade, por exemplo, de 30 pessoas, apenas três são mulheres: eu, minha irmã e outra garota. Mas você tem que mostrar o porquê está ali. Você está ali para ganhar.

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