Camila Lajolo é médica e Lemann Fellow. Sua trajetória foi marcada por um diagnóstico de linfoma e muitos aprendizados. Hoje, após seu tratamento, ela tem um desejo: colaborar na vida de outros pacientes.

Conheça mais sobre sua história:

Nasci em São Paulo, sou filha de dois professores universitários. Talvez por isso, desde cedo tive prazer em me dedicar aos estudos. Quando terminei o ensino médio, decidi cursar Biologia na Unicamp. Era uma das minhas matérias preferidas na escola. Porém, depois de três semestres, percebi que gostava de uma parte específica do curso. Queria mesmo era estudar o ser humano.

Voltei para São Paulo e me matriculei num cursinho preparatório, decidida a migrar para a faculdade de Medicina. Para isso, teria que enfrentar um dos vestibulares mais concorridos. Mas toda a minha dedicação durante os anos anteriores valeu a pena. Não só fui aprovada novamente na Unicamp como tirei nota máxima na redação. Uma bela surpresa para a minha mãe, especialista em teorias literárias, que identificou o meu texto durante um congresso.

Fui novamente para Campinas, já mais segura da escolha profissional. Após concluir o curso, optei por fazer residência em Hematologia, área que estuda o sangue e suas doenças. Era uma tarefa desafiadora, porque exigia lidar com frequência com pessoas muito doentes que, em muitos casos, acabavam falecendo.

Às vezes, a vida nos prega surpresas não tão boas...

No terceiro ano da residência, encarei uma surpresa nada agradável. Eu que um dia ajudava os pacientes a se tratar, estava precisando de uma avaliação médica. Eu mudei do lado da mesa. Fui para o lado do paciente.

O diagnóstico foi rápido. Após detectar alguns sinais em meu corpo de que algo estava errado, senti uma "bolinha" na base do pescoço e comecei a ter uma tosse seca que não passava, fiz fazer um exame no próprio hospital universitário onde estudava. Ao acordar da anestesia, me deparei com minha irmã, oncologista, dando a notícia de que eu estava com linfoma, um tipo de câncer que afeta o sistema linfático. 

O tratamento começou imediatamente. Dois dias depois do diagnóstico, realizei a primeira sessão de quimioterapia. Por saber quais eram as estatísticas de sobrevivência de pacientes com linfoma e ter noção de como funcionava cada etapa, precisei fazer acompanhamento com o psiquiatra para conseguir acreditar que havia chances de sair daquela situação.

A primeira dificuldade é saber se o tratamento vai funcionar. Quando funciona, o mais difícil passa a ser fazer os acompanhamentos, conviver com a dúvida se a doença vai voltar ou não.

Camila durante tratamento do linfoma em 2003
Fonte: Arquivo pessoal.

Superei e progredi

Quando o tratamento chegou ao fim, após quatro meses, ao mesmo tempo em que concluía minha residência, pude respirar aliviada. Estava curada. Mas ao voltar a trabalhar nas consultas, percebi como era difícil separar sua visão como profissional e paciente, sempre observando o que acontecia ao seu redor. 

Lidando com esse impasse, descobri a área de acreditação. Passei a visitar hospitais para checar se os processos realizados estavam corretos, garantindo que o cuidado prestado aos pacientes fosse de boa qualidade. Aos poucos, meu foco passou a ser a gestão da qualidade de hospitais.

Fui responsável pelas certificações de qualidade dos primeiros bancos de sangue do Brasil, tanto na rede privada quanto na rede pública.

Cheguei a cuidar de unidades de  Santa Casa no interior de Minas Gerais e de hospitais famosos na capital paulista. Conforme me especializava, passei a buscar novos desafios para entender as diversas faces do sistema de saúde.

Após um MBA na Escola Paulista de Medicina, conheci o Institute for Healthcare Improvement (IHI), uma ONG norte-americana cujo propósito de atingir resultados de melhoria em larga escala era exatamente o que buscava em minha vida profissional. Ao me aproximar da ONG e de seus profissionais, passou a entender melhor o ramo da segurança do paciente.

Para ingressar de fato nessa área, decidi fazer um mestrado de segurança do paciente e qualidade. Foi então que consegui uma bolsa da Fundação Lemann para estudar em Harvard, me tornando uma Lemann Fellow. A bolsa para o mestrado fez toda a diferença pois foi na época em que o dólar estava muito alto em consequência da bolha imobiliária que estourou por lá. Não sei se conseguiria pagar a mensalidade, material e moradia sem a bolsa.

Camila em sua formatura em Harvard
Fonte: Arquivo pessoal.

Ao voltar para o Brasil, em 2014, recebi um convite do Hospital Santa Catarina para integrar a equipe que estava sendo formada para cuidar da qualidade de segurança do paciente. Uma vez lá dentro, criei o programa Salus Vitae. O resultado foi justamente o que sempre sonhei, de grande escala. 

Após 18 meses, pelo menos mil pessoas deixaram de ter infecções dentro dos hospitais. Hoje, está em andamento um programa sobre a diminuição da infecção generalizada. A iniciativa terminava no fim de fevereiro deste ano, mas o objetivo de reduzir em 30% o número de casos já tinha ultrapassado antes mesmo do prazo final.

Meu desejo é alcançar uma melhoria em escala

Recentemente dei início a dois projetos, um internacional e outro nacional. O primeiro é para ajudar a International Federation of the Red Cross e Red Crescent Societies (Cruz Vermelha Internacional) a desenvolver uma estratégia de qualidade para melhorar a assistência de saúde que eles prestam em desastres e outras emergências humanitárias. 

O segundo é uma consultoria para o CONASS (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) com o intuito de instrumentalizar as secretarias estaduais de saúde para a inserção de políticas relativas a segurança do paciente no planejamento estratégico dos próximos 5 anos. Ambos estão começando e terminam no final deste ano (2019).

Meu objetivo é trazer todo o seu conhecimento adquirido no exterior para impactar diversas vidas e famílias levando a melhor qualidade para os hospitais. Eu sou muito apaixonada por isso e acredito muito que é possível fazer o melhor.

Diante de tantas experiências e reviravoltas, minha principal mensagem é que sempre devemos aproveitar todas as oportunidades que a vida proporciona, sem medo de arriscar. 

A situação perfeita não vai vir, não dá pra esperar ter as melhores condições de tempo, pressão e temperatura. As pessoas às vezes têm medo de arriscar, mas é preciso se jogar. Não tenha medo de ir atrás do que você acredita e quer fazer.

Foto foi tirada no dia de alta pós-cirurgia da Camila
Fonte: Arquivo pessoal.

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