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Foi em uma escola cheia de desafios na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, no início dos anos 2000, que os caminhos das professoras Claudia Zuppini e Silvana Tamassia se encontraram pela primeira vez. Desde então, elas nunca mais se separaram. De lá para cá, a dupla revolucionou um ambiente escolar violento, transformou uma comunidade estigmatizada, foi premiada e, hoje, lidera a Elos Educacional, consultoria que colabora com a melhoria da educação.

Brincadeira que virou profissão

Oi, gente, aqui é a Silvana Tamassia. Tenho 47 anos, sou de Maringá, no Paraná, mas vim para Santo André ainda menina, aos seis. A minha história com a educação começou há muito tempo. Sempre quis ser professora, desde criança. Eu brincava de escolinha, dava aulas para a minha irmã; em todas as oportunidades eu estava no papel de professora. Então, quando cresci, fiz magistério, que, na época, era o curso que a gente fazia para ser professora. Depois, cursei pedagogia, fiz pós-graduação em Educação Infantil, especialização em Educação Infantil e em psicopedagogia. Também tenho mestrado na área da educação e agora estou no doutorado.

Estudei em escola pública a vida toda e também fiz o magistério em uma instituição pública. Comecei a trabalhar ao final do Ensino Fundamental. No início da carreira, fui professora de Educação Infantil, mas meu sonho era alfabetizar os alunos. Para mim, ser professora era ensinar as crianças a ler e a escrever. Depois, fui trabalhar com as turmas de alfabetização, minha primeira realização profissional. Comecei em escola particular, antes mesmo de estar formada e, mais tarde, prestei concurso e entrei na rede pública, onde fui professora de Educação Infantil, de Ensino Fundamental e coordenadora pedagógica. Cheguei, ainda, a ter algumas turmas na faculdade e dei aulas de pós-graduação, sempre na área da educação. Também foi uma experiência bem legal, apesar das dificuldades estruturais que é ser professora de Ensino Superior no Brasil em rede particular. Mas foi muito interessante trabalhar com quem vai formar os futuros alunos. 

A menina que queria ser bailarina e virou diretora

Olá, me chamo Claudia Zuppini Dalcorso e tenho 51 anos. Nascida em Santo André e até hoje morando aqui. Eu e a Silvana temos uma trajetória parecida. Com 16 anos, já estava fazendo magistério. Aos 17, comecei a dar aula em uma escola particular. Desde então, me dediquei aos estudos em educação, fiz muitos cursos. Não tive condições financeiras para fazer faculdade logo após os quatro anos de magistério porque, na época, a faculdade pública não era tão acessível, como também não tinha FIES nem PROUNI. Eu precisava trabalhar, não tinha como parar e estudar. Então, demorei um pouco para cursar a faculdade de pedagogia. Depois de formada, não parei mais: fiz dois cursos lato sensu, mestrado e doutorado. É uma longa trajetória educacional. Eu acredito muito no poder da escola pública. Foi lá que eu me fiz, me formei e consegui me tornar o que sou hoje. Em nossa sociedade, a escola é muito importante, e ela foi tudo para mim.

Diferentemente da Silvana, eu nunca sonhei em ser professora. Queria ser bailarina. Mas se fazer faculdade era difícil na minha época, fazer balé, então, era muito mais. Foi um sonho que não dei continuidade, mas ao entrar no magistério, a primeira vez em que pisei na sala de aula, a minha sensação era de que eu tinha nascido para aquilo. Era como se eu tivesse feito aquilo muitas vezes, há muitas vidas. Foi paixão à primeira vista. Depois, quis ser diretora porque achava que a abrangência do trabalho da sala de aula era um e, como diretora, era outro. Via a direção como um lugar de muitas transformações. Foram sete anos como diretora pela prefeitura de Santo André e foi incrível, foi um grande salto qualitativo na minha profissionalização docente.

Claudia (à esquerda) e Silvana (à direita) trabalham juntas desde o início dos anos 2000
Claudia (à esquerda) e Silvana (à direita) trabalham juntas desde o início dos anos 2000
Fonte: Arquivo pessoal.

A estreia de uma dupla de sucesso

Nos anos 2000, comecei a carreira [aqui é a Claudia!] como diretora em uma escola sem muitos funcionários. Eu tinha que lidar com a dificuldade de gerir a escola com poucas pessoas. Foi aí que selecionaram a Silvana para ser minha coordenadora pedagógica e, de cara, a gente já combinou bastante. Não tínhamos medo de arriscar nem de trabalhar. Muitas pessoas não querem fazer grandes mudanças porque mudar sempre gera algum desconforto e faz você trabalhar um pouquinho mais. Com toda mudança, há quebra de paradigmas e resistências. Então, às vezes, é mais cômodo deixar tudo do jeito que está. Mas nada disso nos impediu de realizar inovações na escola. 

A primeira experiência juntas foi fantástica. Fizemos uma revolução dentro da escola. Colocamos alunos que tinham o mesmo nível de aprendizagem, independente da idade, na mesma sala. Criamos vários processos, viramos a escola de cabeça para baixo para poder trazer à tona uma concepção de ciclo de aprendizagem. Só que depois de cinco anos ali, nos convidaram para uma escola maior e mais desafiadora. 

Escola-desafio

Passamos de uma escola de 700 alunos para outra bem maior, com 1.200, localizada em um bairro com infraestrutura precária da periferia de Santo André. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) era muito baixo, os índices de violência e reprovação altíssimos. A escola era bonita, nova, ficava no meio de uma comunidade, em um vale. Ali tinha de tudo: fome, violência contra as crianças, tráfico de cargas de caminhões roubados; pouco antes da gente chegar havia acontecido uma chacina. Mesmo com todos esses problemas, foi muito bom ter ido para lá. No início, ficamos receosas com a mudança, mas logo fizemos uma reviravolta local. 

A escola se chamava Cata Preta, igual ao bairro em que ficava. A primeira coisa que fizemos foi rebatizá-la porque as pessoas associavam o nome a algo ruim. Fizemos, assim, um super projeto e mobilizamos a comunidade para escolher um novo nome, que passou a se chamar Carolina Maria de Jesus, em homenagem à autora de “Quarto de Despejo”. A escritora representava o lugar. A história dela era a história daquelas pessoas. Foi uma grande mobilização na comunidade, trouxemos para frente essa história, da mulher negra, que tem que trabalhar e cuidar da família inteira. 

Professores e equipe gestora da creche, EMEIEF e Centro Comunitário que compunham o CESA Cata Preta
Professores e equipe gestora da creche, EMEIEF e Centro Comunitário que compunham o CESA Cata Preta
Fonte: Arquivo pessoal.

Também fizemos um projeto de leitura que envolvia a escola e a comunidade. O nosso propósito era melhorar a qualidade e tirar o estigma de que lá ninguém aprendia porque era pobre ou porque alguém da família estava preso. Todo mundo começou a ler. De repente, as pessoas liam em todos os lugares: no ponto de ônibus, na perua, na hora da merenda, antes das aulas. Virou a escola da leitura. O projeto fez sucesso e foi indicado para o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, em 2007. E a gente acabou ganhando o prêmio, que teve repercussão nacional. 

Isso foi muito bom para a escola porque ela saiu de um lugar totalmente estereotipado, de violência, e não aprendizagem, e foi para outro patamar, o de reconhecimento nacional. Nós ganhamos na aprendizagem também. Houve um grande avanço educativo. No Ideb, saímos de 3,7 para 5,1. E não foi só isso, fizemos muitas outras coisas para a escola avançar, como acompanhar de perto os professores. Foi um trabalho de gestão feito no feeling, no ensaio e erro. Construímos arduamente, para, depois, pegar todo esse conhecimento prático e transformar em algo que pudesse ser compartilhado com o "universo". 

Apesar do sucesso, ouvimos de várias pessoas e até da prefeitura que o que a gente estava fazendo não era replicável em outras escolas. É claro que nem sempre as 8h de trabalho eram suficientes e que precisávamos nos dedicar para além disso. Mas a gente achava que era possível replicar sim. Só precisávamos de estrutura, metodologia, processos. 

Algum tempo depois, veio um choque. Nas eleições, outro partido assumiu a prefeitura e tiraram a gente da escola. Como tínhamos boa conexão com a comunidade, o novo governo imaginava que poderíamos fazer algum tipo de campanha contra. Foi uma dor imensa. Tínhamos tanta paixão pelo que fazia que sair assim, por causa de política, foi difícil. Você ganha prêmio, aumenta o Ideb, traz a comunidade para perto, deixa a escola redonda e aí precisa sair? Ficamos arrasadas e ficamos um semestre de "luto". 

Uma nova vida

Deixamos a coordenação pedagógica e a diretoria, e voltamos para a sala de aula. Entramos no mestrado para buscar novos significados para o que tinha acontecido. O contato que tivemos com a Paula Lozano, com a Ana Inoue (que foi a selecionadora do prêmio) e com a Cláudia Costin na época do Prêmio Educador Nota 10 ajudou a abrir outros caminhos para a gente. Foi nessa época, entre 2010 e 2011, que viemos para a Fundação Lemann. Começamos trabalhando no programa Gestão para o Sucesso Escolar, que, nesta época, virou uma pós-graduação. 

Quando começamos na Fundação, tínhamos muita experiência prática, fizemos workshops, montamos míni cursos e fomos caminhando nesse sentido, como consultoras. Assim que o Denis [Mizne] entrou na Fundação Lemann, ele pediu para criarmos um curso que não tivesse tanto a cara da universidade, mas, sim, uma coisa mais prática, dinâmica, que atendesse, especificamente, as dores do gestor, sem a rigidez da universidade. E, então, criamos o curso Gestão para a Aprendizagem, um retrato do que a fazíamos na época da escola, só que com um pouco mais de processo, metodologia e fundamentações teóricas. Para ter fundamentos, viajamos. Fomos para Nova York, conhecemos escolas de gestores. Fomos para Stanford, para a Califórnia, onde visitamos várias startups. Também fomos para a Virgínia e para o Chile. 

Claudia durante uma formação
Claudia durante uma formação
Fonte: Arquivo pessoal.

A Fundação Lemann e o nascimento de duas empreendedoras

Em seguida, recebemos o desafio da Fundação Lemann para abrir uma organização e assumir, como parceiras, a responsabilidade da formação. Quando o Denis fez o convite para nós, pensamos: “Temos dois caminhos, ou encaramos o desafio ou vamos trabalhar para quem encarou.” E, assim, aceitamos, e a Elos nasceu.

Começamos devagar, ficamos com receio, mas compramos a ideia de um novo desafio. Uma coisa é trabalhar na área da educação fazendo educação, outra coisa era ir para além da educação, gerenciando um negócio, empreendendo. No começo, não tínhamos ideia de todos os desafios pela frente. Chegamos cruas de um jeito! A gente ia para as reuniões de empreendedores sem entender nada. Foi um mundo de aprendizados sobre empresas, receita, lucro presumido, imposto. Foram anos aprendendo e ainda falta muito. 

Nesse processo, a Fundação Lemann foi essencial para a gente, incentivando a fazer as viagens, apoiando. Sempre tivemos alguém da Fundação para nos ajudar na administração, para sanar dúvidas. A figura do Denis foi muito importante. Ele apostou e foi de mãos dadas com a gente. Ele só foi soltar a nossa mão há uns dois anos, quando ficamos prontas para andar com as próprias pernas.

Silvana durante formação do Time de Autores da Nova Escola
Silvana durante formação do Time de Autores da Nova Escola
Fonte: Arquivo pessoal.

Elos Educacional: engajamento, prática, aprendizagem e alegria

A gente trabalha com formação de professores e gestores escolares de todos os níveis, e fazemos um trabalho de consultoria. Acreditamos que em educação você precisa de formação constante. A insatisfação com a nossa realidade é uma coisa que nos move. Um grande valor para nós é a aprendizagem. A gente estuda muito, sempre, tanto na nossa vida pessoal, quanto na Elos. Trazer a prática nos define. Não temos a pretensão da academia, que foca muito mais na epistemologia, na filosofia etc. A gente quer algo que vai resolver o problema das equipes, das escolas. De 2011 até hoje, já atendemos cerca de 4 mil escolas de 24 estados.

Os valores da Elos, que ficam pendurados na parede do escritório, são: engajamento, valorização da prática, aprendizagem contínua, humildade, qualidade e alegria. A gente quis trazer um pouco da alegria que existe na escola para dentro do escritório, para nunca nos esquecermos do lugar de onde viemos. Também trabalhamos com muita humildade no sentido de saber que não somos as donas da verdade. Como viajamos pelo país inteiro, encontramos muitas realidades, e a gente não pode achar que a nossa é melhor do que a do outro, a gente é diferente. Então, temos de ser humildes para entender aquela realidade, discuti-la e apresentar a nossa proposta. Trabalhamos para melhorar a escola, mesmo estando do outro lado; as coisas se entrelaçam. A escola está dentro da gente o tempo todo. 

A equipe da Elos no Learning Day de 2019
A equipe da Elos no Learning Day de 2019
Fonte: Arquivo pessoal.

As pessoas que trabalham na Elos, um grupo de aproximadamente 50 pessoas, são muito comprometidas e apaixonadas pelo trabalho e pela educação. O mais importante que a gente conseguiu construir foi ter uma equipe que acredita nas mesmas coisas que a gente. Não queremos só crescer, expandir aleatoriamente, pensamos em como crescer sem perder a qualidade. Quando alguém fala na Elos, queremos sempre que a pessoa pense em alguma coisa boa, de qualidade. É um princípio para a gente fazer a diferença. Impactar e ajudar a construir uma escola cada vez melhor.

Muita gente diz que a parceria que temos uma com a outra faz a diferença para que a Elos se desenvolva. E nós conseguimos fazer essa gestão de uma maneira compartilhada, sabendo ouvir, dando feedback e estando abertas para novas ideias, o que faz com que consigamos nos desenvolver e desenvolver a empresa ao mesmo tempo. 

Oito anos depois, sabemos que ainda estamos no começo de algo muito maior. É motivador trabalhar em um lugar com tantas possibilidades. É difícil, mas nada que é legal assim é fácil. A educação é o espaço da transformação. Educação é transformação. É com a educação que o ser humano se desenvolve e tem a possibilidade de ser o que quiser. Educação é a base para o desenvolvimento do potencial humano. É nisso que a gente acredita e defende!

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