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São pessoas como o Welligton Trindade que nos fazem acreditar no Brasil. Empreendedor nato, ele foi criado na periferia de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Jovem, negro e cheio de sonhos, começou a vender picolé aos oito anos de idade. Hoje, ajuda a formar outras juventudes que sonham em mudar o país para melhor. 

Conheça, abaixo, a história dele.

Olá. Eu sou o Welligton Trindade Vitorino e tenho 24 anos. Nasci em Niterói e cresci em São Gonçalo - região metropolitana do Rio. Hoje, vivo e trabalho em São Paulo. Durante minha trajetória, estudei em escolas privadas, na rede pública e em um colégio construtivista.

A minha história, na verdade, começa aos oito anos de idade, quando comecei a trabalhar. Meu pai é padeiro e minha mãe é técnica de saúde bucal. Também tenho um irmão mais velho, que foi um espelho para a minha educação. Meus pais se separaram quando eu tinha quatro anos de idade. Tive uma excelente referência dentro de casa. Minha mãe sempre falava que nós deveríamos estar entre os melhores, tirar as boas notas porque, segundo ela, a luz se aproxima dos melhores.

Well dentro de um carrinho durante sua infância
Well durante sua infância
Fonte: Arquivo pessoal.

Aos oito, tive minha primeira experiência no comércio. Meu pai vendia água, refrigerante e energético na praia enquanto eu e meu irmão ficávamos por lá com a minha mãe brincando, nos divertindo. Mesmo divorciados, meus pais tinham um bom relacionamento. 

Um dia, meu pai fez uma proposta: nos daria o lucro de tudo o que a gente conseguisse vender. Eu gostei tanto que costumo dizer que, depois dessa vivência, saí querendo vender até a minha mãe [muitos risos]. 

No quinto ano, fui para a escola pública, o que abriu muito a minha mente. Teve greve logo nos três primeiros meses, uma loucura total. Antes, eu vivia num mundinho e, de repente, entrei em uma escola gigantesca, onde passei a conviver com pessoas de diferentes contextos. Gente de comunidade, que, até ali, não fazia parte da minha realidade.

Nas férias de 2006 para 2007, meu pai abriu uma padaria. Eu e meu irmão fomos trabalhar com ele. A gente ganhava R$ 50 para trabalhar das 9h às 18h, de segunda a sábado. No fim dessas férias, quis continuar trabalhando, mas meus pais não deixaram com medo de que aquela rotina fosse atrapalhar os estudos. 

Ainda durante essas férias, nas semanas em que não ficava na padaria, eu saía para vender picolé [tinha de coco, banana, granola, morango, de tudo!] com um amigo cuja mãe tinha um salão de cabeleireiro mais ou menos perto da minha casa. Um belo dia, eu viro para o meu amigo e digo: “Vamos montar uma sociedade? A gente passa a manhã na escola e, à tarde, vendemos picolé”. A mãe dele não deixou. 

Well, à esquerda, sentado em uma calçada com seus amigos
Wellington com seus amigos da escola
Fonte: Arquivo pessoal.

Mas eu continuei nisso e, em março de 2007, estava na rua vendendo e três homens me abordaram para comprar. Na hora de pagar, disseram que estavam sem a carteira ali e pediram para eu passar no trabalho deles mais tarde para pegar o dinheiro. Eram militares e foi assim que comecei a vender picolé dentro de um Batalhão da Polícia Militar. Vendi lá por três anos. Logo de cara, foram 95 gelados. Em um dia, fiz R$ 50, ficando por ali, bem na saída do refeitório, das 13h até às 14h30. Por mês, eu tirava quase R$ 1 mil. Eu tinha 12 anos e ganhava quase o mesmo valor do que a minha mãe. 

Nem tudo foi assim tão fácil. Um mês se passou e o coronel me chamou para conversar. Ele disse: “Pelezinho [era o meu apelido], você estuda?” Eu respondi que sim e, então, ele me desafiou: “Então, vamos fazer um combinado. Você continua vendendo picolé aqui, mas ao final de cada bimestre quero ver o seu boletim”.

Well vestido de confeiteiro na época que vendia docinhos com sua tia
Wellington também vendeu docinhos com a ajuda da sua tia
Fonte: Arquivo pessoal.

O coronel me ensinou muitas coisas. O pessoal do batalhão me adotou porque, de acordo com eles, eu era um menino muito esforçado e educado também. 

Em paralelo, fui investir na produção de doces, como brigadeiro e cajuzinho. Aqueles que ficam expostos no balcão do caixa das padarias, sabe? A gente [eu digo a gente porque a minha tia era quem fazia os docinhos] começou a fazer 20 doces para a cantina da igreja. Depois de um tempo, os produtos já estavam em 23 pontos de venda — quase todos os comércios do meu bairro. 

Assim, montei uma estrutura, uma pequena fábrica de distribuição de doces. Era bem artesanal, um negócio de subúrbio, simples. Ali eu aprendi o que era empreender de verdade. Com o tempo, descobri que se eu pegasse o mesmo doce e colocasse na caixinha com um laço, eu ganharia três vezes mais. Passei dos 12 aos 18 anos fazendo isso.

Fui um jovem que nunca esteve em uma situação de privilégio, mas também nunca me faltou nada porque eu fazia dinheiro. Eu ajudava em casa, não tinha uma necessidade real, ninguém passaria fome se eu não colaborasse, guardava um pouco do dinheiro e gastava bastante também. A lan house do meu bairro que o diga. O lado bom nisso tudo é que eu tinha minha independência. A parte ruim é que, em vários momentos, eu não conseguia estar junto da minha família. Hoje, eu vejo o pessoal da minha idade querendo sair de casa, se libertar, e estou no sentido oposto: tudo o que mais quero é estar com os meus familiares. Todo o tempo vago que tenho, vou para perto família. 

Os militares conseguiram a minha primeira bolsa de estudos. Ganhei 50% de desconto e os outros 50% eu mesmo pagava. Foi ótimo. Aquilo serviu para a me dar consciência do que eu fazia com o meu dinheiro.

E eu comecei a pensar: “Estou investindo em mim e isso vai ter um retorno”.

Saí do batalhão em 2010, continuei com os doces, mas decidi me dedicar mais aos estudos. Fiz os dois primeiros anos do Ensino Médio em uma escola técnica, onde estudava tecnologia em alimentos. Entrei nessa escola e comecei a colocar umas metas para mim. Eu quero realmente ser um expoente. Foi um investimento deixar o batalhão e entrar nessa escola.

Todo mundo achava que eu queria, na faculdade, estudar engenharia de alimentos, mas descobri que o que eu queria era fazer algo na área de finanças. Em 2011, fui a uma palestra sobre carreiras com um cara chamado Marcos Moura. Nesse evento, me destaquei e o Marcos passou o contato dele para mim. Resolvi escrever para ele contando um pouco da minha vida. O e-mail tinha nove páginas! Ele leu e me convidou para tomar um café. Nesse encontro, consegui uma bolsa para estudar na Escola Parque, na Gávea. 

Fiz uma prova de nivelamento e fui muito bem em humanas, mal em matemática e, na parte de português, fiquei na média. Mesmo assim, a escola resolveu acreditar em mim. No entanto, cheguei lá e não fui bem, porque eu não tinha a mesma base que a molecada. Era o terceiro ano.

Foi um exercício de humildade. Porque na outra escola todo mundo dizia que eu era o melhor e, ali, eu era só mais um.

Nessa época, encontrei uma ex-professora que perguntou o que me afligia e se eu sofria preconceito de raça ou classe social. Eu disse que não. Na verdade, um menino fazia algumas piadinhas, mas eu não abaixava a cabeça. A vida me ensinou que não é fácil, mas que a gente pode vencer. A professora, então, quis saber sobre a minha rotina e eu contei: acordo às 4h, às 4h40 pego o ônibus e chego na escola às 6h45.

Eu era um dos primeiros a chegar. Na volta, era sentar no ônibus e esperar. Eu saía às 17h e estava em casa às vezes às 20h, noutros dias 20h30. Foi aí que ela sugeriu que eu dormisse na sala dos professores de numa escola pública do Leblon. 

Daí, eu saía da escola às 17h, ficava estudando até as 22h com dois amigos, ia para a escola pública e entrava no meio do movimento, tomava banho e dormia. Na hora de sair, que era a mesma hora da entrada dos alunos dali, era a mesma coisa. Para ninguém desconfiar da minha presença, combinei com a professora que quando faltasse algum professor, ela me avisaria e eu poderia dar alguma aula de monitoria no lugar.

Então, das 7h às 17h, eu convivia com a elite brasileira, com filhos de vários empresários, de celebridades, onde era comum o pessoal ir esquiar em Aspen. E, à noite, eu convivia com outra realidade do Brasil, de gente que morava na Rocinha, no Vidigal, em Rio das Pedras, jovens que queriam ir para o asfalto para poder dar uma casa para a mãe.

No fim do ano, depois da tempestade, veio a bonança: passei na faculdade federal, na estadual, ganhei bolsa na PUC, no Ibmec [escolhi cursar administração de empresas no Ibmec], tirei mil na redação do ENEM, a nota máxima. Ganhei uma bolsa, fui para Oxford estudar, fiquei um mês lá. Nesse período, também descobri a Fundação Estudar.

Well durante sua formatura com a família
Durante formatura da graduação no Ibmec com sua família
Fonte: Arquivo pessoal.

Até que em uma palestra, um empresário falou algo que me impactou muito. Ele disse que a juventude não estava se movimentando para resolver os grandes problemas do Brasil. Um dia depois de ouvir isso, eu me mexi e, assim, nasceu o ProLíder, em novembro de 2015. Em 2016, eu e dois amigos criamos o Instituto Four, que abriga o ProLíder, justamente um programa de formação de lideranças jovens que consiste em discutir o cenário atual do país.

Muitos nomes de peso dão aula no ProLíder, que é um curso gratuito. No primeiro ano, tivemos 2.014 inscritos, no segundo foram 2.505 inscrições e, no terceiro, tivemos 5.600 inscrições. O número de 2019 foi 9.435. Daí, a gente seleciona, por meio de um processo seletivo, cerca de 40 jovens por ano. Tem sempre muita diversidade porque eu não queria reproduzir os lugares por onde passei, em que geralmente eu era o único cara de classe mais baixa. Tem diversidade de gênero, raça, classe social, orientação sexual.

Well com sua família durante o lançamento do Instituto Four, parceiro da Fundação Lemann
Lançamento do Instituto Four, parceiro da Fundação Lemann, que foi criado por Wellington
Fonte: Arquivo pessoal.

Também fazemos a Jornada ProLíder, em que levamos focos do programa para cerca de 1.500 jovens, de vários lugares diferentes. Eu brinco que não dá para discutir diversidade dentro de uma sala no Itaim, na Vila Olímpia. Assim, ficaria fácil, né? Mas tem que gastar sola de sapato. Vamos para Manaus, para comunidades ribeirinhas de Belém e por aí vai. É um esforço grande, mas que dá retorno. Este ano, já fomos para 17 estados.

A dica que eu dou para os jovens é: convivam, também, com pessoas mais velhas. Tempo de voo conta muito. Essas pessoas podem te ajudar a errar menos. É importante, ainda, ter autoconhecimento. As coisas ficam mais fáceis quando a gente se conhece bem. E quando você descobrir aquilo que realmente quer fazer, foca, foca, foca e vai com tudo porque hoje tem muita oportunidade para a juventude, muito acesso à informação. 

E investir em educação, claro. Na minha trajetória, comecei trabalhando muito, o que me ajudou, mas o que potencializou os meus resultados e me deu acesso a pessoas foi o estudo. 

A educação é fundamental na vida de todo mundo. E a educação é contínua.

O mundo é das pessoas que continuam aprendendo constantemente e aplicando o conhecimento.

Para o futuro, eu quero empreender mais, criar outros negócios. Em algum momento, gostaria de ter uma experiência maior de estudo fora do país. E, a longo prazo, quero entrar para a política brasileira porque acredito que o cidadão tem, de alguma forma, que pensar em ajudar o meio político, seja trabalhando em uma secretaria, apoiando alguém. 

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