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Meu nome é Girleno. Nasci em Taguatinga, no Distrito Federal. Fui criado por minha avó e desde pequeno enfrentei grandes obstáculos que me fizeram aprender que na vida as conquistas dependem de esforço. Meu pai vendia roupas de porta em porta e aos poucos foi juntando algum dinheiro até que conseguiu nos levar para Manaus (AM), onde residimos até hoje. 

Com doze anos de idade, fui para para uma escola particular para fazer o ensino fundamental. Ali, pude perceber a diferença entre a educação pública e a privada. Porém, ao completar quinze anos, comecei a trabalhar e passei a estudar numa escola técnica da rede pública de ensino.

Comecei a trabalhar vendendo livros, depois fui para uma concessionária de carros e até cheguei a vender café. Os anos foram passando e nunca cheguei a pensar em uma graduação, até que sofri um acidente em 2000 e passei a rever essa minha visão. 

Quebrei a perna e precisei ficar parado para me recuperar. Naquele momento, dei-me conta de que todos aqueles anos haviam se passado e eu não tinha priorizado a minha graduação. Decidi cursar sociologia e durante o curso descobri uma vocação para lecionar. Assim que completei a formação, participei de um processo seletivo e tornei-me professor. 

Girleno faz parte da nossa rede de Talentos da Educação
Girleno faz parte da nossa rede de Talentos da Educação
Fonte: Arquivo pessoal.

Investindo naqueles que são o futuro

Desde que entrei numa sala de aula, a vontade de fazer a diferença esteve sempre em meus planos. Não queria ser apenas mais um professor, queria que meus ensinamentos impactassem meus alunos. Por isso, no ano de 2016 começamos com Projeto de Futebol Americano na Escola, a fim de oferecer algo diferente aos estudantes das escolas públicas, em bairros abandonados pelo poder público. A ideia surgiu após uma pesquisa de campo, realizada pelos alunos com 400 famílias, onde as mesmas apontaram que a escola não era atrativa, o que gerava um alto índice de evasão escolar.

Girleno com alunos do projeto de futebol americano
Girleno com seus alunos do projeto de futebol americano
Fonte: Arquivo pessoal .

No ano seguinte, lancei o projeto que considero o principal: o Voz Ativa. Nele, conseguimos envolver mais de 1500 alunos na Câmara Municipal de Manaus. Cada um deles fez um pré-projeto de lei para entregar aos vereadores. Tudo começou quando dividi os alunos da Escola Estadual Benedito Almeida em equipes e eles se reuniram para discutir as carências do bairro, a falta de infraestrutura nas diversas áreas, como saneamento, asfalto, saúde e segurança. Com esta iniciativa, recebemos os prêmios Parlamento Jovem Brasileiro e Missão Pedagogia, em Brasília; e o prêmio Criativos da Escola, no Rio de Janeiro.

Este projeto foi reconhecido por políticos e especialistas. Através das solicitações dos alunos, eles tomaram atitudes para resolver questões como buracos na rua, problemas na calçada e sinalização. Hoje, o Voz Ativa está viajando pelo país inteiro, sendo o atual representante do Estado do Amazonas no Parlamento Juvenil Mercosul.

Após esse retorno tão significativo, criei o projeto Conservar, Transformar e Brincar, que consiste em mostrar a importância da conservação ambiental para as crianças e também para o bairro. 

Eu e meus alunos vamos até as ruas, pegamos os tambores de lixo e os pintamos. Nesse momento, a criançada se diverte e coloca toda a criatividade para funcionar. Além da pintura, elas acompanham palestras sobre o meio ambiente. Já alcançamos cerca de quatro mil crianças com essa atividade, esse projeto recebeu menção honrosa na premiação Criativos da Escola, e ganhou o Prêmio Professor Inovador 2019, no Amazonas. Através dele, já doamos cerca de noventa tambores para escolas, unidades de saúde e terminais de ônibus.

Alunos que participaram do projeto Conservar, Transformar e Brincar
Alunos que participaram do projeto Conservar, Transformar e Brincar
Fonte: Arquivo pessoal.

Em 2019, criamos outro projeto, o Direitos Humanos, que visa promover o diálogo entre estudantes, escola e moradores sobre a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nossa intenção é contribuir para a construção de empatia e humanismo nas relações comunitárias, evitando conflitos e conscientizando/engajando as pessoas sobre seus direitos fundamentais. Também trabalhamos para ajudar a comunidade venezuelana que vive em Manaus.

Minha relação próxima com cada um de meus alunos inspirou a criação de mais um projeto, o AME, “Alunos Mais que Especiais”. O foco é a saúde mental de cada um deles, por isso, abrimos espaço para que eles possam falar sobre os problemas que estão passando. Criamos a sala do Fale Sem Medo, na qual os estudantes podem desabafar sobre todos os assuntos que quiserem, sem serem julgadas e sem receio de que seus segredos sejam espalhados, e assim podemos ampará-los quando necessário.

A Rede de Líderes

Sempre acompanhei tudo sobre educação na internet. E um dia, durante minhas pesquisas, encontrei um post que falava sobre o Talentos da Educação. Li sobre o programa e me identifiquei com todas aquelas pessoas motivadas a mudar a educação pública brasileira. Realizei minha inscrição no programa, participei do processo seletivo e, felizmente, recebi a resposta de que havia sido aprovado para a turma de 2019. 

Hoje, ser integrante da Rede me une a centenas de professores de todo o Brasil. Durante os encontros aprendo e me inspiro para experimentar novas práticas na sala de aula. 

Os alunos têm um grande potencial, mas sem uma educação inclusiva, que estimule a participação cidadã, eles não despertam o senso crítico e podem seguir por caminhos errados. Por isso, acredito, sim, em uma educação que torne os estudantes verdadeiros atores de suas mudanças. 

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