Conteudo Cabeçalho Rodape

Oi, eu sou o Edu Lyra, tenho 31 anos e vou contar a minha história para vocês. Tive um início de vida bem pobre. Nasci em uma favela de Guarulhos, na Grande São Paulo, e vivia em um barraco bastante simples e humilde, de chão de terra batida. Até os nove primeiros meses de vida, eu dormia em uma banheira azul porque meus pais não tinham grana para comprar um berço. Meu pai acabou entrando no mundo do crime e foi preso, indiciado por roubo a banco. Então, eu cresci nesse contexto, de ter um pai no presídio, de viver em uma favela durante a primeira infância, onde não tinha escola, creche nem saneamento básico. Ou seja, sem o mínimo necessário para se ter uma cidadania digna.

O que me salvou é que eu tive uma mãe muito forte, uma líder, uma heroína. Minha mãe, dona Maria Gorete, ocupou a ausência do Estado. Ela me deu muito amor, carinho, presença, afeto; ela construiu em mim uma reserva emocional gigante. Minha mãe me criou como diarista e, desde sempre, todos os dias ela falava: "Filho, não importa de onde você vem, o que importa na vida é aonde você vai. E você pode ir aonde quiser, você pode tudo."

O meio em que eu estava inserido jogava um vírus na minha cabeça, que ecoava: “Você não pode chegar lá porque seu pai é bandido, porque você nasceu em uma favela.” E minha mãe, diariamente, me jogava o antivírus, dizendo: “Você pode, é possível, levanta a cabeça, olha para a frente, vai estudar, vai melhorar, vai avançar.” Então, devo o meu voo de lá para cá totalmente à minha mãe. Meu pai saiu do presídio e voltou pra casa há 20 anos e, logo na saída da prisão, ele tomou a importante decisão de que ia me criar e, assim, abandonou o crime.

Edu na infância
Edu na infância
Fonte: Arquivo pessoal.

Os estudos, a leitura

Quando eu tinha sete anos de idade, meu pai saiu da cadeia, deixamos a favela em Guarulhos e fomos morar na periferia de Poá, também um município da Grande São Paulo. Eu só estudei em escola pública. Nunca fui o melhor da turma, mas sempre gostei de ler. Em casa, eu não tinha livros, dificilmente há livros na casa de gente pobre, mas tinha uma Bíblia. Eu ficava sozinho em casa por horas tentando ler a Bíblia. E, por isso, fui um dos três primeiros alunos da classe a aprender a ler. Aquilo para mim foi uma diversão. Sempre gostei de palavras, de ler, de construir redações, textos, histórias. As palavras mudaram a minha vida. Essa capacidade de articular ideias e textos, de conversar, de convencer, de me comunicar, de vender, de mobilizar gente. Tudo isso veio dos meus anos iniciais na escola. A base de tudo o que eu faço hoje está exatamente nesses primeiros anos escolares, quando consegui aprender a ler.

Claro que, para me ajudar nessa conquista, eu tive o apoio de uma pessoa maravilhosa, a professora Sueli. Foi ela quem me ensinou a ler. Acho que uma das maiores conquistas na vida de um ser humano é aprender a ler. Você aprende a ler e, depois, consegue tudo. Ler e interpretar texto. A professora Sueli me deu essa base e, além disso, ela estimulava e parabenizava os meus pequenos avanços. O grande diferencial da minha vida foi ter tido estímulo, tanto da minha mãe quanto da minha professora e até hoje, de alguns líderes que passam pela minha vida como mentores.

Imagina uma criança que só sabe engatinhar. A educação faz essa criança andar; não só andar, faz também ela aprender a andar de bicicleta; e não só de bicicleta, mas depois de um tempo faz ela também saber guiar um carro; e não apenas um carro, faz ela também aprender a pilotar um avião. Se a pessoa não tiver o acesso à educação, ela vai ficar para sempre engatinhando. Vai ser um sujeito de 30, 40 anos que não anda, engatinha.

A educação é o que te dá ferramentas, é o que te abre para o mundo. Por isso, sou tão entusiasta da Fundação Lemann e tenho muito orgulho de trabalhar em conjunto porque o caminho é esse. Se não, nós vamos ter um país em que a minoria anda, a minoria voa, a minoria faz coisas incríveis e a grande maioria engatinha e é guiada. A educação faz as pessoas guiarem, faz as pessoas deixarem de ser apenas seguidores e cria discípulos, que lideraram movimentos e ampliam o impacto.

Edu Lyra com os pais
Edu Lyra com os pais
Fonte: Arquivo pessoal.

Gerando Falcões: do livro à ONG

Depois do Ensino Médio, fui cursar jornalismo na UMC, a Universidade de Mogi das Cruzes. Eu estudei, mas não me formei. Quando entrei na faculdade, tive um baque, deparei-me com um mundo completamente diferente e percebi que eu estava bem distante da galera. No último ano do curso, pensei: “Quero fazer alguma coisa grande, relevante”. 

E, então, tive a ideia de escrever um livro chamado “Jovens Falcões” porque muitos amigos que cresceram comigo tinham ido para as drogas ou entrado para o crime; as meninas tinham engravidado muito cedo e serviam os traficantes. E eu queria mostrar para essas pessoas que existia uma vida além daquele universo, eu queria contar a história de jovens que deram certo. Para isso, vendi notebook, calça jeans, celular e fui viajar o Brasil para conversar com essas pessoas. Tranquei a faculdade e fui para o mundo, fui fazer jornalismo na prática. 

Voltei para casa, escrevi o livro e mandei para uma editora, que disse que só poderia me dar uma resposta sobre a publicação depois de três meses. Mas, para mim, era muito tempo. Então, fui dar o meu jeito para publicar o livro de outra maneira. Captei patrocínio em Poá com os meus amigos, com empreendedores locais e publiquei o livro de forma independente. Mandei para uma livraria e disseram que não poderiam colocar o livro à venda porque eu não tinha relevância, não era conhecido. Novamente, fiz do meu jeito: montei um time com 30 jovens, treinei todo mundo e a gente começou a vender o livro de porta em porta por R$ 9,99 na periferia e na favela. O ano era 2012 e em três meses nós vendemos 5 mil livros. Com a grana arrecadada, criei a minha ONG, a Gerando Falcões.

Porém, com tudo isso, percebi que eu era um cara ilhado na periferia e na favela. Eu queria causar transformações, mas o mundo dos negócios estava no centro. E cheguei à conclusão de que eu precisava fazer pontes porque o Brasil é um país com muitos muros. Há muitos muros entre ricos e pobres, brancos e negros, direita e esquerda, gays e evangélicos, evangélicos e judeus. E pensei que precisava ser um cara das pontes, um pontífice. Nessa de fazer as pontes, a gente [eu e os cofundadores da Gerando Falcões] começou a levar várias empresas para a favela. Conseguimos, entre outras, levar Microsoft, Motorola, Ambev, Oracle, Itaú, Visa. Dessa forma, começamos a crescer. 

Visitantes são conduzidos por Edu durante visita à favela
Visitantes são conduzidos por Edu durante visita à favela
Fonte: Arquivo pessoal.

Fomos crescendo, crescendo, crescendo… até que eu conheci o Jorge Paulo Lemann e esse cara, efetivamente, mudou a  minha vida; ele me deu um empurrão muito grande. Colocou um recurso na ONG por meio da Fundação Lemann e falou: “Edu, você precisa sonhar grande, você precisa crescer, você não pode pensar só na sua favela, você tem que pensar na favela de todos. Tem que encontrar outros Edus e outras Dudas e formar essas pessoas para elas ajudarem a mudar o Brasil.” 

Foi exatamente isso que eu comecei a fazer da vida. O Gerando Falcões deixou de ser uma ONG em uma favela e se tornou uma rede de ONGs dentro de periferias e favelas, e o nosso papel é servir de plataforma para o desenvolvimento de líderes em favelas por meio de gestão, impacto social e mobilização de recursos. Estamos em muitos lugares, de Maceió a São José do Rio Preto, e vamos terminar o ano com dez unidades aceleradas dentro da nossa rede com impacto direto sobre quase 50 mil pessoas.

A gente trabalha com foco em educação, utilizando cultura, esporte e qualificação profissional para jovens e adultos com o objetivo de inserir esse pessoal no mercado de trabalho. Além do Jorge Paulo Lemann, conseguimos mobilizar outros investidores para nos apoiar nesse sonho.

A experiência nos EUA

Em 2017, fiquei quase três meses nos Estados Unidos estudando inglês e, no final desse período, fiz um curso de liderança autêntica em Harvard. Foi uma das grandes experiências que eu tive. Também participei da Brazil Conference em Harvard, depois vi palestras em Nova York, Miami, Atlanta. Nesse meio do caminho, acabei sendo eleito pelo Fórum Econômico Mundial um dos jovens que podem ajudar a mudar o Brasil e o mundo, apareci, ainda, na lista da revista Forbes entre os jovens mais influentes do país e fui escolhido o homem do ano pela revista GQ. Tudo isso, esses prêmios, essas coisas todas, só fazem sentido quando eu consigo canalizar a visibilidade e o reconhecimento para melhorar a vida das pessoas que poderiam estar no meu lugar, tendo o mesmo reconhecimento, mas não estão ainda porque não tiveram a oportunidade.

Respirar, inspirar, aprender, sonhar

Algumas pessoas me inspiram bastante, principalmente o pessoal que trabalha comigo, como o Le Maestro, cofundador da Gerando Falcões. Tive a sorte de me casar com a Mayara, que também é cofundadora do Gerando e que me inspira demais. O Jorge Paulo Lemann é um cara com quem aprendo todos os dias, que me impulsiona a sonhar grande e fez toda a diferença na minha vida. Também fiquei tocado com a trajetória do [Nelson] Mandela, tanto que fui para a África do Sul para estudar a história dele. 

Adoro ler sobre tecnologia, autobiografias, biografias. No geral, o que me inspira muito é a história das pessoas que estão comigo na favela e não aceitam o pó do chão como destino final, que levantam todos os dias, sacodem a poeira e vão atrás. E tentam, e tentam de novo no outro dia e saltam os obstáculos. Acredito muito na força do espírito humano, que é maior do que tudo. Eu vivi a fome, a escassez, a dor, mas meu espírito sempre foi imbatível. E se o espírito das pessoas é imbatível, elas conseguem construir o que quiserem.

Meu sonho é que a desigualdade da favela vá parar no museu. Quero estar presente em todas as favelas do Brasil. Hoje, nós temos quase 7 mil favelas no país e cerca de 14 milhões de pessoas vivendo nesses espaços de pobreza, onde faltam saneamento básico, água potável, escola, creche, educação de qualidade. Para esse sonho se tornar realidade, precisamos de líderes. A mudança só vai acontecer com líderes empoderados, com apoio, com suporte. Há uma revolução diante de nós começando a acontecer nas favelas e ela vai ficar cada vez maior por meio do impacto desses líderes sendo acelerados por nós.

Edu discursando durante jantar da ONG Gerando Falcões
Edu discursando durante jantar da ONG Gerando Falcões
Fonte: Arquivo pessoal.

E o futuro? O que há lá na frente?

Queremos apoiar e acelerar centenas de ONGs e líderes sociais de favelas do Brasil inteiro nos próximos três anos. É isso que eu me vejo fazendo, liderando a rede Gerando Falcões. Acho que a gente ainda não atingiu nem 10% do nosso potencial, temos um potencial de crescimento muito maior e, para isso, quero cada vez mais mobilizar mais gente, mais investidores, mais recursos, desenvolver e potencializar mais líderes sociais de favelas, ampliar o impacto nesses espaços de pobreza e levar a elite brasileira, as universidades e as grandes empresas, assim como as melhores ferramentas de tecnologia, para dentro da favela. É só assim que a gente muda o Brasil. 

Eu não vou conseguir mudar o Brasil, nós vamos conseguir mudar o Brasil. Mas, para termos o nós, precisamos derrubar os muros, que são muitos ainda, e construir as pontes. Precisamos fazer um Brasil mais junto, unir o branco com o preto, o rico com o pobre, o de direita com o de esquerda, o gay com o evangélico, o evangélico com o judeu. Todo mundo junto trabalhando na mesma direção, independente se alguém é diferente de mim, se pensa diferente de mim. É trabalhando junto que a gente descobre o nosso melhor. 

Eu reconheço que a vida é muito dura, que a falta de oportunidade machuca e joga para baixo, mas não desista. Desistir é a pior coisa que alguém pode fazer para si próprio. Continua, vai até o fim. Levanta todo dia, sacode a poeira e vai e tenta, tenta. Tropeçou, caiu? Levanta e tenta de novo. Não existe outra fórmula, não existe outro caminho. Eu cheguei até aqui tomando muito não, mais não do que eu imaginei que poderia ganhar. Mas toda a vez eu voltava para casa, melhorava a ideia, estruturava de outra forma o plano, depois voltava lá de novo e tentava transformar o não em sim. E cuida de dentro, não deixe que um vírus destrua os seus sonhos, passe um antivírus todos os dias. Ter um vírus na cabeça é como ter uma Ferrari na garagem e não poder usar porque não tem gasolina. Passa o antivírus e vai. Como o Jorge Paulo Lemann me ensinou: “Edu, vai que dá”.

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