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Por Camila Pereira e Daniel De Bonis
Diretora de Educação e diretor de Políticas Educacionais da Fundação Lemann

Quando, em outubro de 2019, 7 milhões de alunos fizeram as provas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), ninguém poderia imaginar o que 2020 lhes reservaria: meses a fio de escolas fechadas, os percalços e as descobertas do ensino não presencial, as inseguranças e as expectativas em torno da reabertura.

Divulgado nesta terça-feira, o Ideb, índice calculado com base nos resultados destas provas e na taxa de aprovação, pode parecer o retrato de um distante passado pré-pandemia. Mas, no momento em que discutimos a necessária reabertura segura das escolas, ele também nos instiga a pensar a retomada das aulas em outras bases. Precisamos recomeçar, melhor.

Nos últimos anos, o Brasil tem registrado avanços em câmera lenta na educação. O Ideb 2019 não foge à regra: em todas as etapas houve avanços tímidos, incrementais. Nos anos iniciais do ensino fundamental na rede pública, fomos de 5,5 para 5,7. Nos anos finais, de 4,7 para 4,9.

A surpresa veio do ensino médio público, estagnado há muitas edições, em que crescemos de 3,5 para 3,9. A distância entre os resultados das escolas privadas e públicas também tem sido reduzida, lentamente, mas de forma consistente.

Não há contradição em, por um lado, reconhecer o esforço dos administradores públicos, dos gestores escolares e, acima de tudo, dos educadores no alcance destes resultados, e, por outro, admitir que eles são insuficientes.

Aos dez anos, 40% dos estudantes ainda não têm proficiência adequada em leitura e escrita. Ao final do ensino médio, só 37% aprenderam o esperado em língua portuguesa; só 10%, em matemática.

Foi nesse duro cenário que a pandemia chegou. Sabemos que o fechamento das escolas impacta o aprendizado: diversos estudos apontam que seis meses de escolas fechadas podem corresponder ao equivalente a um ano ou mais de déficit de escolaridade.

A evasão também pode aumentar: pesquisa Datafolha mostrou que 38% dos pais temem que seus filhos não voltem para a escola.

Mas, como os números mostram, o coronavírus pode vir a intensificar nossos problemas —baixa proficiência, alta evasão, inaceitável desigualdade— mas eles não são novos. E a crise atual não nos permite outra postura senão encará-los e recomeçar, melhor.

Os números do Ideb iluminam experiências que podem ajudar nisso.

Há muito a aprender, por exemplo, com o regime de colaboração em alfabetização implementado de forma pioneira no Ceará, o Programa de Ensino Médio de Tempo Integral de Pernambuco, entre outras iniciativas.

Nesta edição, estados como Alagoas e Piauí se destacaram. Sistematizar os aprendizados destas experiências e disseminá-los é um dos melhores usos que podemos fazer dos dados.

O governo federal aproveitou a divulgação para anunciar mudanças. O Saeb deve ser reestruturado para abarcar todos os anos, avaliando mais disciplinas. Também se propõe que as notas, a partir do ensino médio, sirvam para ingresso no ensino superior. Uma comissão analisará ainda o futuro desenho do Ideb, cujo ciclo de metas se encerra em 2021.

É muito importante que tais mudanças sejam discutidas amplamente e implementadas com o devido cuidado. Um sistema nacional de avaliação legítimo se constrói com muito diálogo com as redes de ensino e especialistas.

Na revisão do Ideb temos uma grande oportunidade de desenhar novas metas para estados e municípios, como alfabetização na idade certa, por exemplo —ainda um grande desafio para o país.

Também não podemos perder de vista que as provas do Saeb ainda não medem habilidades mais complexas, nem as competências previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como pensamento crítico e científico, capacidade de argumentação e domínio da cultura digital.

A educação que precisamos construir vai muito além do que as provas atuais conseguem medir. E a construção coletiva dessa nova educação vai depender do engajamento de gestores, educadores, especialistas e de toda a sociedade. Precisamos recomeçar, melhor.

*Artigo originalmente publicado no site do jornal Folha de S.Paulo no dia 15 de setembro de 2020 e também na versão impressa no dia 16.

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