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25 maio 2023 | 00h00

Cinco destaques do encontro com Sam Altman, o CEO da OpenAI

Por Guilherme Cintra

Em meio aos rápidos avanços do campo da inteligência artificial, o uso (e o debate) das novas tecnologias extrapolam os laboratórios e alcançam a sociedade como um todo. É, Sam Altman acredita, “uma revolução imparável”. O CEO da OpenAI, empresa que criou o ChatGPT, veio ao Brasil na semana passada, a convite da Fundação Lemann. No encontro no Museu do Amanhã, ele expôs sua visão sobre o futuro da inteligência artificial, os riscos, as potencialidades e os desdobramentos do rápido avanço das IA’s no mundo. Abaixo, cinco pontos marcantes na conversa com Altman.

1. A velocidade das mudanças é surpreendente – mesmo para quem está desenvolvendo as IAs. No Museu do Amanhã, Altman contou que eles mesmos se espantam com o ritmo das transformações e correm atrás para acompanhar desde questões técnicas de escalabilidade até decisões éticas. A principal delas, segundo ele, foi o próprio lançamento do ChatGPT, no final do ano passado: “Fizemos isso sabendo que existe um grande custo em acelerar o mundo. Por outro lado, não acho que se possa descobrir a resposta para a segurança de inteligências artificiais no vácuo. Realmente precisamos de interação e diálogo, para que a sociedade e a tecnologia coevoluam. Quanto melhores sistemas tivermos, melhores pesquisas de segurança poderemos fazer”.

Parte do time da OpenAI está literalmente plugando cabos de servidores e ao mesmo tempo viajando pelo mundo para falar sobre esse trabalho. Se o ritmo do desenvolvimento das IAs está acelerado para quem está do lado de dentro do balcão, Altman também enxerga o impacto disso para os usuários da tecnologia: “Acho que a maior dificuldade é a velocidade com que a sociedade precisa se adaptar a isso. Normalmente, levamos algumas gerações para [lidar] com uma revolução tecnológica, e talvez agora tenhamos dez anos”.

2. Ampliar o debate é a forma de potencializar os efeitos positivos das IAs e minimizar aspectos negativos. E por isso mesmo o CEO da OpenAI está fazendo um tour pelo mundo. “Queremos que as pessoas tenham tempo para descobrir coletivamente como querem que essa tecnologia funcione”, afirmou. Ele veio ao Brasil a convite da Fundação Lemann, que também aposta no diálogo abrangente como forma de mitigar os riscos e direcionar o desenvolvimento ético e sustentável das tecnologia. Respondeu a perguntas da plateia, desde questões sobre o futuro do mercado de trabalho até sobre a regulação das IA’s (a propósito, ele defende um modelo regulatório internacional).

Apesar da dificuldade que temos em acompanhar a velocidade com que as mudanças vêm se apresentando, Altman completou: “É muito importante que o mundo tenha tempo gradualmente para entender essas tecnologias, para se adaptar, para entender o que está por vir e para nossos formuladores de políticas debaterem”.

3. Para evitar vieses negativos, será preciso encontrar formas de “coletar sistemas de valores” e garantir que sociedades com valores e culturas diferentes compartilhem com a OpenAI suas visões de mundo para que possam ser incorporadas. “Podemos trazer o sistema de valores da humanidade para essa tecnologia de uma forma que não conseguimos antes”, disse Altman. “Diferentes pessoas em diferentes lugares precisam ser capazes de pressionar os modelos para atender aos valores de seus países. Sou otimista de que esses sistemas serão usados para reduzir a quantidade de preconceito no mundo.”

4. Na visão de Sam Altman, a chamada inteligência artificial geral (ou AGI, na sigla em inglês) tem um objetivo específico: a aceleração do progresso científico. No Museu do Amanhã, o CEO da OpenAI deixou isso explícito em diversos momentos. Para ele, a inteligência artificial geral, ainda muito difíceis de conceber, vai permitir aos humanos acelerar muito os avanços na ciência. Não se trata de substituir pessoas, mas de alavancar progressos. “O que faríamos em gerações alcançaremos em anos”, disse Altman. 

Em tempo: é preciso dizer que o conceito de inteligência artificial geral não é bem definido – aliás, o próprio conceito de “inteligência” (sem o termo “artificial”) não é um consenso. O campo das inteligências artificiais surge como uma forma de tentar emular processos cognitivos humanos por meio de máquinas. Há as específicas (por exemplo, o próprio ChatGPT ou un por exemplo um algoritmo criado a partir de dados apenas para prever a evasão escolar), e a Inteligência Artificial Geral, um conceito entendidos por muitos como aspiracional. Ou seja, aspiramos que elas consigam efetivamente compreender as coisas, os contextos, adaptar-se a eles e, portanto, gerar qualquer tipo de conhecimento que se busque. Há quem defenda que a IAG poderá chegar ao nível de compreensão a que um ser humano chegaria – ao ponto de substituí-lo e superá-lo. O que Sam Altman nos diz, no entanto, é muito diferente disso: “Ainda seremos muito úteis em um mundo com IAGs. Teremos inteligência artificial geral e ainda teremos humanos totalmente no controle do mundo”.

5. As pessoas seguirão no centro. Se um dos grandes temores em torno do salto das IA’s diz respeito ao futuro do trabalho, Altman defendeu que, mesmo as mais avançadas inteligências artificiais gerais, não podem substituir o homem. Mas, sim, ele admite que muitos empregos vão desaparecer. “De forma ampla, acho que teremos ferramentas muito boas em realizar tarefas. Elas ainda não são boas em fazer trabalhos inteiros, mas vão continuar melhorando. E queremos ser honestos sobre isso, mesmo que seja desconfortável: a perda de empregos acontece a cada revolução tecnológica”. 

Por outro lado, no campo do trabalho, um impacto esperado é o aumento da produtividade, com profissionais acompanhados de super assistentes. Um exemplo citado por Altman são os tutores artificiais personalizados, que vão acompanhar os alunos e entender seus desafios específicos: “Será um grande benefício para a educação. Vai permitir que os professores realmente façam o que fazem de melhor e forneçam apoio aos alunos, mas terão uma grande alavanca em sala de aula, e os resultados serão surpreendentes”.

Tem uma tarefa que as máquinas não são capazes de cumprir, como lembrou Felipe Petroski Such, o programador brasileiro que integra o time da OpenAI: definir o que os humanos realmente querem. “Duvido muito que uma IAG seja capaz de descobrir o que eu realmente preciso hoje para resolver meu problema. Como saber o que os humanos precisam é algo que os humanos também precisam descobrir”, disse Such.

Altman, por fim, posicionou as IA’s como ferramentas que vão empoderar o homem: “Queremos garantir que as pessoas tenham o poder de ver as coisas ganhando vida sem exigir todo um conhecimento técnico [prévio]”. 

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