Por Leticia Lyle


Parar e refletir sobre como e aonde chegamos é revisitar nossa história sob novas lentes. Reconhecer as influências e as contribuições de pessoas que passaram pela nossa vida ajuda a clarear o caminho que, no meu caso, parece inusitado e levou às escolhas que fiz.

Propósito
Desde pequena fui acostumada a participar de discussões acaloradas sobre injustiças sociais, inclusão, direitos humanos. Generosos e sensíveis, meus pais faziam questão de incluir pessoas em tudo o que fazíamos, independente das condições sociais, raça, gênero ou time de futebol. A casa era alegre, diversa e colorida, características que busco trazer para tudo o que faço até hoje.



Leticia em acampamento na Suécia aos 13 anos

Sempre soube que as vantagens de ter pais educados e recursos financeiros estavam atreladas à minha responsabilidade de deixar o mundo melhor de alguma maneira. Aos nove anos de idade, criei grupos antibullying na escola. Aos 11, discuti a paz internacional em um acampamento na Suécia. Aos 13, discuti o conflito árabe-israelense em um fórum na Turquia e aos 15 já dirigia atividades internacionais para jovens.
Minha mãe representou papel inspirador em toda essa caminhada dizendo que deveríamos buscar eficiência, sentido e propósito no que fazíamos. Altas expectativas, sempre. Na minha adolescência, ela batalhou contra um câncer devastador por seis anos, que acabou por vencê-la quando cheguei no 1º ano do ensino médio.

Independência
Sempre fui a representante da minha sala, a oradora da turma, aquela que sentava na frente da árvore para não deixar que fosse cortada. Trabalhava em ONGs em São Paulo e, seguindo os passos da minha irmã, que partiu para a Expedição Vagalume com apenas 21 anos, me inscrevi em um programa que dava a volta ao mundo em um navio durante seis meses.
Optei por estudar administração de empresas na FEA-USP e cinema na FAAP-SP, tendo cursado jornalismo e puxado dois anos de Anatomia como curso extra. Meus interesses eram muitos! Fiz uma pós-graduação em Direito Empresarial Internacional também na FAAP e outra pós-graduação em administração executiva na FGV-SP. Estudei cinema na New York Film Academy e na NYU. A graduação em pedagogia só veio depois!

Encontro
Em 2009, entrei para o Teachers College (TC) da Universidade Columbia, em um programa de Teaching Residency, pelo qual trabalhava todos os dias em uma escola pública, com o acompanhamento de professores e supervisores, e durante as tardes e noites tinha aula. Lembro da sensação após meu primeiro dia de aula: euforia. Apesar de estar começando uma nova carreira do zero, sentia animação com a ideia de viver aventuras com meus alunos, e orgulhosa de que um dia seria uma professora de ensino fundamental I. Ao sair do TC, minha vida virou educação. Dei aula em três escolas com perfis de alunos totalmente distintos antes de voltar ao Brasil em 2012.

Impacto e educação pública
Chegando a São Paulo, virei sócia da Casa Cuca Ferramentas de Ensino, e trabalhei com programas de intervenção em escolas e atendimentos individuais. Meu foco era no trabalho com as ferramentas que os alunos precisavam para lidar com seus desafios, forma de pensar e funções executivas. Fundei também a Mindset Education, empresa colaborativa de projetos educacionais voltados para o estudo de competências não-cognitivas.
No meio de 2013, trabalhei como professora da Escola Graduada de São Paulo, assumindo uma sala de 3o ano de ensino fundamental. Foi uma chance única e também uma grande sorte – minha diretora se transformou em uma mentora para meus projetos socioemocionais. Ela havia implementado o Programa Second Step em todo o distrito de Austin, no Texas, e me apoiou quando, em meados de 2014, decidi sair da sala de aula novamente para adaptar o programa ao Brasil.

Formações de professores em competências socioemocionais

Fundei o Instituto Vila Educação com mais três sócios, e trabalhamos junto com o Committee for Children para criar o Programa Compasso Socioemocional, que teve como piloto 17 escolas da Rede Estadual de São Paulo. Em 2016, já eram mais de 140 escolas utilizando o programa, em parceria com a Parceiros da Educação. Aprendi muito! Trabalhar na rede pública tem seus desafios, mas foi encantador e transformador o contato com professores e alunos que viam o conceito da aprendizagem socioemocional pela primeira vez.


Uma questão para ser abordada por todos os lados
Mas como incluir o trabalho com competências socioemocionais em todas as escolas e disciplinas? Como transformar a escola para que essa dimensão seja parte do que nos comprometemos como resultado final da educação? Colaboração, pensamento crítico, solidariedade, autonomia – como transformar tudo isso em medidas concretas? Minha aposta é em práticas e estruturas de ensino diferentes, formação e desenvolvimento pessoal de professores e, fundamentalmente, currículo.

Atividade no espaço AfterSchool Educação

A vontade de pensar no meu modelo de escola experimental deu vida ao AfterSchool Educação, um espaço de aprendizagem centralizado em competências socioemocionais e um laboratório de educação do século XXI, e à Mindset Education, uma empresa colaborativa focada em construção de currículo. Em um programa inovador do Instituto Singularidades, abracei como co-coordenadora o desafio de tocar a pós-graduação em Formação Integral para o Educador.

Equipe da Somos Educação, onde atuo desde 2016

Um convite especial veio em 2016 para ser diretora de Currículo, Avaliação e Formação de Professores das área de Conteúdo e Inovação da Somos Educação, e pensar em como trazer a discussão das competências do século XXI para os currículos e materiais da empresa, que hoje atingem mais de 28 milhões de brasileiros em redes públicas e privadas.


Ser uma Lemann Fellow e uma Teachers College
Participar da rede Lemann Fellowship me trouxe não apenas amigos e sócios, mas também mentes brilhantes que me inspiram todos os dias. Ajudar a Fundação Lemann em sua missão de transformar a educação pública brasileira me enche de orgulho!

Foto 1: Eduardo Kruel, Leticia Lyle, Claudia Costin e Duval Guimarães (Lemann Fellow) | Foto 2: Allan Jales (Lemann Fellow)

A parceria com o Teachers College também é significativa – o programa dos Lemann Fellows levou outros brasileiros até Columbia e nos aproximou das conversas internacionais sobre a prática educacional e a pesquisa. Entre tudo isso, a discussão sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ganhou significado nas paredes e bibliotecas da faculdade, que completa 126 anos.
Algumas vezes fui convidada pelo Teachers College para “voltar para casa” e compartilhar meus aprendizados, mas esse ano o convite foi especial. Recebi o prêmio Teachers College Early Career Award e, junto com a Fundação Lemann, realizei um debate sobre a implementação da nossa Base Nacional Comum Curricular.


A educação está em todos os lugares. Em um momento ou outro, todos irão pensar, discutir e refletir sobre qual a melhor proposta, qual o resultado que esperamos. Educação é pensar no futuro que queremos, e não há nada mais fantástico que poder trabalhar por isso. Eu tive a sorte de abraçar essa área, e ser abraçada por ela, e por isso convido todo mundo a se aproximar mais do assunto, discutir em casa com seus filhos, conversar no trabalho com seus pares. É um misto de esperança e responsabilidade que move as engrenagens do mundo.

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Leticia Lyle faz parte do programa Lemann Fellowship, iniciativa da Fundação Lemann que apoia líderes comprometidos com os principais desafios sociais do Brasil.

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