Artigo escrito por Denis Mizne, diretor da Fundação Lemann

Publicado originalmente em Financial Times

O recurso mais valioso do Brasil é tão precioso quanto abundante: gente. Quase 4 milhões de bebês nascem no Brasil a cada ano, trazendo com eles a esperança de um futuro melhor. No entanto, se a educação pública do país continuar como é hoje, somente metade deles saberão ler antes dos 8 ou 9 anos e, quando chegarem aos 21, apenas 15% vão estar na universidade.

Se não investirmos nos jovens brasileiros agora, daremos continuidade a um lamentável ciclo de pobreza que impede o progresso e o desenvolvimento de todo o país.

Embora muitos avanços tenham sido feitos para trazer crianças e jovens às escolas, os índices de evasão ainda são altos. A maioria dos estudantes brasileiros que chegam a se formar simplesmente não aprendem o suficiente para garantir oportunidades de sucesso na vida adulta.

Isso acontece em parte porque os professores, mesmo com boa formação teórica, possuem poucos meses de experiência prática antes de efetivamente assumirem uma sala de aula. Durante a universidade, eles deveriam ter as mesmas oportunidades de praticar que são dadas aos futuros médicos. Assim como ninguém confiaria em um médico que tenha apenas lido alguns livros sobre medicina e não tenha trabalhado com pacientes reais, professores sem experiência na docência não deveriam assumir aulas.

As escolas públicas do Brasil são frequentadas por 70% das crianças do país. Elas são regidas por políticas públicas diversas que resultaram em grandes discrepâncias entre os currículos praticados em diferentes instituições. Além disso, as crianças ficam ali de quatro a cinco horas diárias, mas estudos mostram que grande parte desse tempo é desperdiçado com chamadas, distribuição de materiais e tentativas de disciplinar alunos desinteressados. Ou seja: as crianças passam muito menos do que quatro ou cinco horas aprendendo o que deveriam.

Como resultado, apenas 7,3% dos alunos de escolas públicas demonstram o nível adequado de aprendizado de matemática e apenas 27% atingem o nível esperado em leitura e escrita. Quando crescem, esses alunos mal preparados compõem a força de trabalho do país, gerando resultados insatisfatórios de crescimento econômico e progresso social.

Segundo estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2016 e 2017, dois milhões de pessoas passaram a viver na linha da pobreza —a maioria em pobreza extrema. Isso significa que hoje há 54,8 milhões de pessoas vivendo nessas condições, das quais 18,2 milhões são crianças com menos de 14 anos.

Quando pensamos em crianças pobres nos preocupamos mais com fome e abandono do que com notas escolares. No entanto, a má qualidade do ensino se tornou um dos principais efeitos da pobreza no Brasil, pois há uma ligação direta entre a educação que nossas crianças recebem e seu status socioeconômico.

A maioria dos alunos de baixa renda frequentam escolas públicas, enquanto crianças com melhores condições financeiras recebem uma melhor formação em instituições privadas. Essa discrepância ficou clara nos resultados do PISA (modelo de avaliação internacional que é referência em todo o mundo), que mostraram que, em termos educacionais, alunos de escolas públicas aos 15 anos se encontram cerca de três anos atrás de seus colegas das instituições privadas.

Como o ensino público contempla a grande maioria dos alunos brasileiros, esses fatores vêm perpetuando o ciclo de desigualdade social enfrentado pelo país. De acordo com um estudo sobre resiliência acadêmica conduzido pela OCDE, apenas 2,1% dos estudantes de baixa renda no Brasil atingem um nível educacional que efetivamente os prepara para assumir papéis ativos em suas comunidades e para aproveitar oportunidades pessoais e profissionais.

Em algumas regiões, ao fim do ensino médio, alunos de instituições privadas aprenderam o equivalente a quatro anos a mais de tempo escolar do que seus colegas do sistema público, mesmo tendo frequentado a escola pelo mesmo número de anos.

Os países mais desenvolvidos economicamente e socialmente são aqueles que investiram na eliminação dessa desigualdade educacional. Para dar início a uma nova era de ensino que maximize o potencial de todos os brasileiros, devemos garantir que todas as crianças frequentem a escola, mas também que todas recebam uma educação de alta qualidade.

Já existe no país uma comunidade de parceiros educacionais e filantrópicos mobilizada para esse fim. Embora novas parcerias ainda sejam necessárias, alguns passos importantes foram dados nos últimos anos, como a aprovação da primeira Base Nacional Comum Curricular por vários órgãos do governo brasileiro em 2017.

Criada com o apoio de grupos de professores e com a mobilização de organizações como a Fundação Lemann, da qual sou diretor, a BNCC define os conhecimentos e habilidades que todos os estudantes brasileiros têm o direito de aprender. Para garantir a implementação do currículo, o Brasil precisa multiplicar ainda mais seus esforços. 

O objetivo é que a Base estabeleça um nível comum de ensino para todos os alunos, e vamos continuar trabalhando com nossos parceiros para que ela esteja presente em todas as escolas e salas de aula até 2022.

Em 2017, o Ministério da Educação lançou o Programa de Inovação e Educação Conectada, com o objetivo de introduzir tecnologias digitais e acesso à Internet de banda larga em todas as escolas públicas do país até o final de 2024. Após apenas um ano de seu lançamento, o programa já beneficiou mais de 7 milhões de alunos em todos os estados brasileiros.

Há muitas outras iniciativas sendo desenvolvidas. Pelo bem do futuro do país, devemos continuar dando prioridade a soluções que proporcionem educação de qualidade para milhões de crianças em todos os níveis sociais.

Quando falamos sobre igualdade de oportunidades na educação, falamos sobre eliminar a pobreza e garantir mais justiça social, saúde, segurança pública e cuidado com o meio ambiente. 

Nada disso será possível sem verdadeiros investimentos em nosso povo. E assegurar uma educação de qualidade para todos é o passo mais importante a ser dado em direção a um futuro melhor. Somente assim as crianças brasileiras estarão preparadas para sonhar e solucionar os principais problemas do país.

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