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Olá! Eu sou a Rutemara Florêncio e tenho 44 anos. Nasci em Pato Branco, no Paraná, mas fui criada em Curitiba, onde vivi até os 26. Sou de uma família pobre, com pai, mãe e dois irmãos. Comecei a estudar [sempre na rede pública] aos seis anos e meio no pré-primário e aprendi a ler muito rápido. Em um mês de escola, eu já sabia ler e, por isso, os professores acharam melhor me mudar direto para a primeira série. Sempre brinquei de escolinha e uma das coisas que eu mais queria era desvendar as letras e as palavras para saber decifrar as placas de trânsito.

Professora Rutemara na escola
Professora Rutemara na 1ª série
Fonte: Arquivo pessoal.

No final da primeira série, mudei de bairro e fui estudar na Escola Municipal Érico Veríssimo. Lá, fiquei até a quarta série. Eu lia muito e fazia as atividades antes mesmo dos professores pedirem. Depois, fui para o ginásio — que era o período da quinta à oitava série — no Colégio Estadual Hasdrubal Bellegard, longe de casa. Eu demorava 45 minutos a pé para ir e 45 para voltar. Terminei o segundo grau nessa escola.

Os professores da minha vida!

Os professores têm um papel muito importante na vida de qualquer pessoa. Dos primeiros anos da minha escolarização, eu me lembro muito da professora Anelor, da quarta série; lembro até da sua fisionomia. A gente nutre uma admiração muito grande pelos professores do início da vida porque, na nossa cabeça de criança, eles sabem tanto! Outra professora foi a Vera, bastante carinhosa, amorosa. No ginásio, eu já tinha mais professores, então, não me recordo tanto. Mas lembro que eu gostava muito do Nicolau, de biologia. Ele era amigo dos alunos, e me deu aula tanto no ginásio e no segundo grau.

Escolhi ser professora desde pequenininha. Sempre quis muito ir para a escola. Meu pai tem até a quarta série e minha mãe não estudou o suficiente, mas sabe ler e escrever. Mesmo assim, ela sempre deu muito valor à educação. O sonho da minha mãe era ter estudado, mas como ela vivia na roça foi difícil. Na época dela, não havia tanto acesso no interior e ela tinha que cuidar dos irmãos.

A minha trajetória educacional foi fomentada pela minha mãe, meu pai também, mas minha mãe investiu e insistiu muito. Ela nos levava e buscava. Fizesse chuva ou sol, a gente sempre estava na escola.

Não lembro de coisas ruins ao longo da minha escolarização. Apesar de ser pobre e de ter pais que mal estudaram, nós fomos galgando espaços. Mesmo com pouco dinheiro, meus pais sempre compravam livros e todo o material escolar. Só me lembro das coisas boas da escola e que sempre valorizei os professores.

Tragédia familiar e pausa nos estudos

Ao terminar o segundo grau, não fui para a faculdade imediatamente. Isso aconteceu porque quando eu estava no terceiro ano meu irmão morreu de repente. Era janeiro de 1993, e foi um choque. Meu pai teve depressão e não trabalhava, só dormia. Minha mãe quis se distrair e montou uma loja de roupas. Fui ajudá-la nesse comércio. Passei três anos a ajudando porque era uma forma dela superar a morte do filho. 

No final de 1996, as coisas estabilizaram: minha mãe estava recuperada e meu pai voltou a trabalhar como marceneiro. Então, fiz o vestibular e passei em segundo lugar. Na época, no Paraná, as faculdades públicas faziam muitas greves e, às vezes, os estudantes passavam seis meses sem ter aula. Demorava muito para se formar. Conversei com os meus pais e decidimos que seria melhor eu cursar uma faculdade particular. 

Estudei história e gostava de todas as disciplinas. Enquanto fazia faculdade, trabalhava na Caixa Econômica Federal. Foram quatro anos de uma rotina puxada de trabalho e estudo. Em 2001, terminei a faculdade e fiz uma especialização em História do Brasil. Em janeiro de 2002, uma tia me ligou e contou sobre um concurso na minha área em Boa Vista. Eu, àquela altura, ainda não tinha tido o privilégio de dar aula e exercer, de fato, a minha profissão. Nunca tinha saído de Curitiba, era bem bairrista, mas minha mãe apoiou. Minha irmã, que é da área da saúde, também decidiu ir para Roraima, comprando duas passagens de avião, uma para ela e outra para mim.

Professora Rutemara e seus irmãos durante a infância
Rutemara e seus irmãos na infância
Fonte: Arquivo pessoal.

Roraima: a primeira sala de aula

Quando cheguei aqui em Roraima, há 17 anos, Boa Vista era bem diferente. Era fevereiro, estava muito quente e eu me assustei com o calor, entrei em pânico. Cheguei no penúltimo dia da inscrição para o concurso e o Edivaldo, que dava aula na escola de Educação Infantil da minha tia, me levou de moto para eu me inscrever. Fazia 15 minutos que eu o conhecia e ele fez isso por mim. Depois de um tempo, fiz a prova, passei, mas antes de ser chamada pelo Estado para assinar o termo de posse, recebi propostas de emprego na rede estadual que, naquela época, funcionava como um seletivo. Eles contratavam você para dar aula e, depois, no fim do ano, descontratavam. 

Estava faltando professor de história em uma escola perto da minha casa. Conversei com a diretora e ela disse: “Já passaram três professores de história por aqui. Então, se você aceitar o trabalho, você vai me prometer que não vai sair até o final do ano”. Aceitei o desafio de ensinar alunos do Fundamental ll. Eu, com 26 anos, só tinha feito estágio na área e não sabia o que era o dia a dia do professor. Foi no exercício da profissão que aprendi a ser professora. Eu não tinha ideia de como era. Fiquei na escola até o início de 2008, quando mudei para a Escola Estadual Presidente Tancredo Neves, onde trabalho até hoje.

Aprendi muito na minha primeira escola sobre as dinâmicas de ensino e aprendizagem. E sofri bastante, nem tudo foram flores. Quando você está começando, você sofre porque ainda não conhece os meandros da profissão.

É difícil. Não foi no dia em que me formei que passei a ser professora, eu aprendi a ser professora na ação, na sala de aula. Eu tinha uma ideia de como era, mas estava equivocada. Você encontra na quinta série aluno que não sabe ler e você precisa alfabetizá-lo. Você não está preparada para essa missão, mas vai deixá-lo sem saber ler? Isso me trazia muito sofrimento. Eu não sabia resolver problemas que vinham lá do início da aprendizagem. 

Como sou professora de história, preciso que o aluno consiga ter o mínimo de interpretação de texto. Quando o aluno chegava sem saber ler e escrever, eu me perguntava: “O que é que vou fazer?”. Porque, eticamente, eu não poderia deixar ele passar para o outro ano sem ele aprender. Eu fui aprendendo ali, fui vendo o que dava certo, o que dava errado. Não gosto de desistir dos desafios, principalmente os profissionais. Sou muito insistente. Fui alfabetizando os alunos, pedindo ajuda aos colegas mais experientes. Fui construindo um caminho, um relacionamento. Não foi fácil porque quando você lida com pessoas você está propenso a tudo. 

Você quer que todos os alunos tenham vontade de estudar, que se sintam motivados, mas é difícil atingir 100% dos estudantes. Mas você pode modificar alguns. Tem professor que só fala coisas boas, como se a sala de aula fosse perfeita. Não é. É um lugar onde você faz uma reflexão e consegue compreender como são as dinâmicas e tenta interferir nelas.

Até hoje alguns alunos dessa primeira escola conversam comigo. Há médicos, advogados, administradores. Eles estão nas minhas redes sociais e falam comigo. Isso significa que eu alcancei os meus objetivos. Eles têm uma vida melhor do que a do seus pais. É a parte mais gratificante do meu trabalho.

Ouvir com afeto

Em 2009, fiz mestrado em educação no Rio de Janeiro. Minha pesquisa foi sobre o ensino de história e, por isso, fui ouvir os alunos. Afinal, o meu objetivo é o aluno e não a teoria de um ensino sem relacionar isso ao que os estudantes pensam. É importante saber o que os alunos estão pensando sobre o ensino de história. 

Descobri que eles gostariam de ter aulas não só com os elementos da economia e da política, mas também da vida das pessoas que faziam a história. Repensei as aulas e mudei um pouco a prática pedagógica, a didática e o entendimento do que o aluno deseja. Ouvir o aluno é uma parte importante do processo de construção dessa relação afetiva.

Os primeiros prêmios

O ano de 2014 foi especial: ganhei o meu primeiro prêmio nacional! Foi na oitava edição do Prêmio Professores do BrasilNa época, os smartphones não eram muito acessíveis para a maioria dos alunos e, com a ajuda de câmeras digitais, computadores e aplicativos de edição, eles estudaram as temáticas de história e transformaram o conteúdo em vídeos que serviram como o trabalho do último bimestre. O trabalho uniu leitura, pesquisa, teatro e design. O prêmio deriva dessas transformações que eu fui percebendo e da ideia de ouvir o aluno, que é muito importante.

Professora Rutemara foi uma das vencedoras do 10º Prêmio Professores do Brasil
Professora Rutemara foi uma das vencedoras do 10º Prêmio Professores do Brasil
Fonte: Arquivo pessoal.

Sempre ouço o aluno e associo tecnologia com leitura e interpretação. Em 2017, ganhei o meu segundo prêmio nacional, na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil. Os alunos estudaram a história de Roraima e tiveram que fazer uma pesquisa de campo trazendo migrantes para falar sobre o motivo de migrar e como era Roraima na época que eles migraram, fazendo associações dos conceitos históricos. Por que eu fiz isso? Porque o estado de Roraima é assim. 50% da população, em 2016, era feita de migrantes e a outra metade era de gente já nascida aqui, mas de família de migrantes também.

Nessa época, os venezuelanos começavam a chegar no estado e hoje já são mais de 50 mil só em Boa Vista. Todos os dias, entram de 700 a mil pessoas pela fronteira. Nesse momento, observando que havia, inclusive, imigrantes venezuelanos estudando na escola, comecei a estudar os processos de migrações, associando pesquisa de campo, metodologia científica e projetos. O meu aluno sai da escola sabendo fazer um projeto. E todo esse trabalho que eles fizeram se transformou em um livro com as histórias dos migrantes entrevistados.

Educadora Nota 10

O terceiro prêmio da minha carreira eu recebi há pouco, e é o mais importante. É o prêmio Educador Nota 10, o Oscar da educação brasileira. Fui contemplada com esse troféu por um trabalho diferente com os alunos do terceiro ano do Ensino Médio. Ao observar que as questões de economia e política predominam nos livros didáticos de história e que os homens são sempre os personagens principais dentro dessa perspectiva, criei um projeto.

As mulheres não aparecem como lideranças políticas, não aparecem nas histórias. A história social em si não tem muita aderência dentro de sala porque os livros didáticos pesam muito a mão no conteúdo relacionado à economia e à política, e a mulher não aparece nesses conteúdo. No entanto, a mulher aparece na mídia o tempo todo como vítima de violência. É uma história de feminicídio atrás da outra. A mulher aparece diariamente como vítima de violência, mas ela não ocupa espaços e por conta dela não aparecer ocupando esses espaços cria-se uma representação de uma mulher constantemente vítima de violência. Por falta de visibilidade da mulher ocupando espaço na política, na economia, na construção de uma história da cidade, do Estado, fizemos o projeto Histórias das Mulheres em Roraima.

Rutemara segurando o troféu do Prêmio Educador Nota 10
Rutemara segurando o troféu do Prêmio Educador Nota 10
Fonte: Arquivo pessoal.

Feito com quatro salas do terceiro ano, os alunos entrevistaram 41 mulheres. Construímos um projeto juntos. Eles coletaram dados antes da entrevista, escreveram a história da entrevistada, construíram um documentário. O projeto era único para todos, porém, cada sala tinha a sua entrevistada. E os documentários e os sites foram construídos em sistema de colaboração. Saíram quatro documentários, quatro sites, onde estão as histórias escritas, onde está cada documentário de cada sala e onde tem o link para as entrevistas completas. Os alunos tiveram contato com toda a questão da tecnologia: design do site,edição de vídeo, aplicativo de editor de vídeo. Eles aprenderam tudo.

Educação te dá a oportunidade de escolhas

A educação de massa é uma luta que se iniciou com os protestantes porque a educação tem o sentido de liberdade. Ela te dá o poder de escolher. E o poder de escolher só vem com o conhecimento. Isso te dá liberdade. A importância da educação é libertar, já dizia Paulo Freire. E algo que liberta dá independência, te torna independente. Você precisa dessa educação, que é dada formalmente na escola, seja ela pública ou privada, que vai te dar essa possibilidade de pensar. A possibilidades de buscar por si mesmo para além da escola. A escola vai fornecer ferramentas que podem te levar a lugares inimagináveis. A educação é libertadora no sentido de dar diferentes possibilidades de escolha.

Rutemara com uma das suas turmas de 2018
Rutemara e seus alunos em 2018
Fonte: Arquivo pessoal.

Se você não sabe ler nem escrever, você vai conseguir sobreviver, mas a que custo só você vai saber. Então, ao ir para a escola e aprender a decifrar os signos das letras e aprender a ler te dá uma ideia de que você pode tudo. E, realmente, se quiser, você pode. Depende muito mais da sua vontade em aprender mais, em correr atrás. A escola permite desenvolver essa percepção.

Eu quero me aposentar como professora. Gosto da minha sala de aula, gosto de criar, pensar em coisas novas, gosto de estar nesse ambiente da sala de aula, que é um lugar de criação. Por mais que, às vezes, falte infraestrutura, que as paredes são riscadas, que falte uma tinta na parede. Porque o ambiente que a gente trabalha interfere muito na motivação, falta uma mesa decente, falta uma cadeira... Por mais que eu esteja em um lugar precário, ainda consigo criar. E quero que os alunos criem comigo. Eu me vejo muito parceira dos  alunos, por isso que eu não quero sair da sala de aula. Eu me mantenho jovem por estar na sala de aula.

Conectando Saberes

Atualmente, além de dar aulas, sou coordenadora da rede Conectando Saberes em Boa Vista. Comecei em 2018 e a experiência está sendo fantástica; ter entrado para esse grupo foi tudo, tudo! Eu aprendo muito nos encontros. Além de aprender, saio motivada e conheço o trabalho de outras pessoas. Isso eleva o ânimo, é fantástico. Ir para os encontros da rede nos dá muito gás.

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