O potencial do uso das tecnologias digitais na educação vem sendo discutido há alguns anos por especialistas de todo o mundo. Neste debate, se fortalece a visão de que a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem quando integrada com o currículo e com a prática pedagógica dos professores. Experiências de uso bem-sucedidas mostram, contudo, que ainda há desafios relevantes e persistentes no Brasil, da falta de infraestrutura - internet de baixíssima velocidade, equipamentos obsoletos e danificados - à falta de formação adequada e suporte aos educadores, fundamentais nesse processo.

Há esforços significativos já em andamento no país para superar esses desafios. O primeiro deles é o Programa Inovação e Educação Conectada (Piec), lançado pelo Ministério da Educação em 2017 e que pretende estimular o uso pedagógico das tecnologias por meio da formação de professores, disponibilização de recursos educacionais digitais e internet de alta velocidade para todas as escolas brasileiras até o fim de 2024. Em 2018, o Programa já beneficiou mais de sete milhões de alunos com ações em todos os estados brasileiros. Também em curso está uma iniciativa liderada pelo BNDES, alinhada ao Piec. Trata-se da Chamada Pública Educação Conectada, que beneficiará em sua primeira fase 11 cidades de seis estados diferentes, totalizando quase 200 mil alunos atendidos.

O Brasil inicia agora um novo ciclo político, no qual devem ser discutidas prioridades para a educação. Para isso, é importante reafirmar o papel que a tecnologia pode ter no alcance das metas previstas pelo Plano Nacional de Educação (PNE) e na busca pela equidade e qualidade na educação pública. Acreditamos que é fundamental dar continuidade a políticas públicas que disponibilizem infraestrutura adequada e tecnologias educacionais para professores capacitados e motivados para gerar novas práticas pedagógicas, centradas na aprendizagem. Dentro do ambiente plural, diverso e coletivo da escola, a tecnologia é capaz de adicionar personalização ao ensino, permitindo que esses estudantes possam aprender em seu ritmo e a partir de seus interesses. Se pensada como política pública multidimensional e estruturante, ela permite, ainda, o acesso a recursos educacionais de qualidade em todas as regiões do país, auxiliando professores, pais e os próprios alunos a ampliarem as oportunidades de aprendizagem, e consegue engajar e motivar os estudantes, promovendo sua autonomia, responsabilidade coletiva e capacidade crítica ao aproximar a cultura da escola à cultura digital prevalente na sociedade.

Na contramão, estão medidas que diminuem a relevância dos professores na mediação do conhecimento, com a falsa premissa de "os alunos aprendem sozinhos". Não acreditamos na promoção do individualismo na aprendizagem, menosprezando a importância da reflexão e da discussão coletiva na construção de conhecimentos, assim como não acreditamos em oferecer apenas ensino à distância na educação básica, privando os estudantes da experiência de socialização do ambiente escolar. Não há sentido algum, portanto, em pensar educação à distância nos anos iniciais do ensino fundamental.

Como participantes ativas da articulação pública e da implementação de experiências para a promoção da tecnologia na educação, seguimos abertas e comprometidas a contribuir para as discussões em torno do tema e a trabalhar com todos os gestores educacionais para fazer da tecnologia uma importante alavanca para o salto de qualidade e equidade que a educação pública do Brasil precisa com urgência.

Lucia Dellagnelo é diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira e Daniela Caldeirinha é gerente de Recursos Educacionais Digitais na Fundação Lemann

* Artigo publicado originalmente no O Globo em 13/12/2018

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